Metal Gear Solid: Master Collection Vol. 2 – Análise
Metal Gear Solid 4 continua a ser uma experiência incomparavelmente singular. Lançado originalmente em 2008, funciona quase como uma despedida de Solid Snake e de várias histórias que a série acumulava há anos. Snake está envelhecido, o mundo vive mergulhado em conflitos privatizados e a guerra tornou-se um negócio controlado por tecnologia, empresas e exércitos privados. A missão transforma-se rapidamente num reencontro com personagens, acontecimentos e ideias dos jogos anteriores, o que torna esta uma aventura claramente pensada para quem já conhece bem a série. O enredo continua exagerado em vários momentos, com demasiado “fan service” e há sequências cinematográficas muito longas, explicações para quase tudo, e uma necessidade constante de atar pontas soltas. Kojima nunca foi muito contido, e aqui essa tendência atinge um dos seus pontos máximos. Ainda assim, é difícil negar o peso emocional de alguns reencontros e a força de um jogo que tenta encerrar uma era.

Quando passa o controlo ao jogador, Metal Gear Solid 4 continua excelente. O OctoCamo permite adaptar automaticamente o fato de Snake às superfícies, tornando a infiltração mais natural, e os cenários oferecem mais liberdade do que nos capítulos anteriores. É possível evitar confrontos, observar patrulhas, aproveitar conflitos entre fações ou recorrer ao enorme arsenal disponível. A estrutura alterna entre ação furtiva, tiroteios, perseguições e “bosses” com uma frequência que ajuda a manter a campanha imprevisível. Nem tudo envelheceu da mesma forma, ainda para mais comparando com Metal Gear Solid V (que não faz parte desta coleção). Alguns comandos mantêm uma rigidez típica da época e certas secções são mais lineares do que parecem à primeira vista. Mesmo assim, há uma quantidade enorme de ideias e momentos memoráveis. O simples facto de se poder jogar esta aventura fora da PlayStation 3 já representa uma das maiores conquistas desta coletânea. Na Nintendo Switch 2, a maior fluidez e a imagem mais limpa dão nova vida ao jogo. Os 60 fotogramas por segundo tornam os movimentos de Snake muito melhores de se ver e beneficiam bastante os confrontos. Não transforma Metal Gear Solid 4 num jogo moderno, mas torna esta versão muito mais confortável de se jogar e ajuda a preservar melhor uma obra que durante demasiado tempo esteve limitada ao “hardware” original.

Peace Walker segue praticamente na direção oposta. Foi criado para a PlayStation Portable e isso nota-se imediatamente na estrutura baseada em missões curtas, mapas mais compactos e objetivos rápidos. Curiosamente, o que podia parecer uma limitação acaba por combinar muito bem com a Nintendo Switch 2. Completar algumas operações como experiência portátil, desenvolver equipamento e regressar mais tarde encaixa perfeitamente no formato da consola. O enredo acompanha Big Boss depois de Snake Eater e ajuda a compreender a evolução da personagem até aos acontecimentos que definem o futuro da série. A formação dos Militaires Sans Frontières, a criação da Mother Base e a crescente independência de Big Boss tornam este capítulo muito mais importante do que a sua origem portátil podia sugerir. Também é aqui que começam a aparecer várias ideias que seriam desenvolvidas em Metal Gear Solid V. Há soldados para recrutar, equipamento para desenvolver, uma base para gerir e missões opcionais que incentivam a voltar a jogar. Esta estrutura cria uma progressão muito viciante e a sensação de querer completar apenas mais uma operação antes de desligar a consola.

A infiltração é mais simples do que em Metal Gear Solid 4, resultado evidente das limitações da PSP, mas continua a funcionar bem. Os mapas são pequenos e os movimentos mais limitados, mas há espaço suficiente para planear abordagens e experimentar equipamento diferente. Os confrontos contra grandes máquinas são menos interessantes e podem tornar-se demasiado longos, sobretudo quando dependem de barras de energia enormes, mas não chegam a ofuscar a qualidade do restante jogo. A adaptação à Nintendo Switch 2 beneficia bastante dos 60 fps e da resposta mais imediata. Visualmente, contudo, esperava-se um pouco mais. Tendo em conta a origem numa consola portátil, havia margem para uma apresentação ainda mais limpa e ambiciosa. Continua a ser uma melhoria clara em relação à PSP, mas não é uma reconstrução profunda.

Metal Gear: Ghost Babel é o elemento mais curioso do conjunto. Lançado originalmente para Game Boy Color, apresenta um enredo alternativa e não pertence à cronologia principal. Apesar das limitações técnicas, continua surpreendentemente sofisticado na forma como adapta a infiltração da série a uma perspetiva de cima para baixo. Snake pode rastejar, esconder-se e usar diferentes ferramentas, e há ideias que continuam interessantes mesmo tantos anos depois. Não será o motivo principal para comprar a coleção, mas funciona muito bem como peça histórica. É precisamente este tipo de recuperação que dá sentido a uma compilação deste género, trazendo de volta jogos que muitos jogadores nunca tiveram oportunidade de experimentar.
Os extras também merecem destaque. Há livros digitais, informações sobre personagens, cronologia, organizações e acontecimentos importantes, além de material pensado para quem gosta de enfiar os olhos na quantidade quase absurda de pormenores que a série Metal Gear acumulou ao longo dos anos. O problema está mais na apresentação do que no conteúdo. Os jogos e os extras continuam organizados de forma algo fria e pouco elegante, sem aquela sensação de coleção cuidada que um nome desta importância merecia.
CONCLUSÃO
CONCLUSÃOPontos positivos
- Metal Gear Solid 4 finalmente disponível fora da PlayStation 3
- Excelente desempenho nos principais jogos
- Dois capítulos fundamentais para Solid Snake e Big Boss
- Ghost Babel é uma recuperação histórica interessante
Pontos negativos
- Seleção relativamente curta
- As longas sequências cinematográficas de MGS4 continuam a quebrar bastante o ritmo
- Alguns elementos de jogabilidade mostram a idade

Calorias, nutrientes e Nintendo. Três palavras que definem o maior fã de F-Zero cá do sítio. Adepto de hábitos alimentares saudáveis, quando não anda atrás de uma balança, costuma estar ocupado com as notícias mais prementes e as análises mais exigentes.

