AnálisesSwitch 2

Denshattack! – Análise

A Dreamcast ficou associada a uma geração de jogos que não precisavam de justificar a sua estranheza. Ideias improváveis eram apresentadas com cores garridas, música explosiva e uma confiança quase irreverente, muito ligada ao estilo artístico japonês da viragem do milénio. Jet Set Radio transformava grafitti e patins numa revolta urbana, enquanto Crazy Taxi fazia do transporte de passageiros uma prova de velocidade, entre outros exemplos desse tempo. Denshattack! recupera muito desse espírito, num jogo onde os patins e os táxis foram substituídos por um comboio capaz de saltar, fazer piruetas e deslizar pelos carris como se as leis da física fossem apenas uma sugestão.

Desenvolvido pelo estúdio espanhol Undercoders, o jogo decorre num Japão futurista controlado pela corporação Miraidō. Um grupo de jovens rebeldes utiliza comboios personalizados para recuperar as ferrovias e enfrentar equipas rivais, numa campanha que junta ficção científica, cultura urbana e a exuberância de uma série de animação japonesa. O enredo é simples mas dá contexto suficiente a um universo onde cada corrida parece decidir o futuro da rede ferroviária. A premissa podia sobreviver apenas pela novidade, mas Denshattack! tem substância para acompanhar a sua personalidade. Cada etapa combina velocidade, plataformas e um sistema de pontuação baseado em manobras. O comboio pode saltar, rodar no ar, inclinar-se e encadear movimentos antes de regressar aos carris. Uma aterragem perfeita prolonga a combinação, um erro quebra o ritmo e pode comprometer o esforço.

Os primeiros minutos exigem adaptação. Controlar uma locomotiva acrobática não é propriamente intuitivo, sobretudo quando o jogo introduz mudanças de linha, travagens, impulsos e rotações enquanto o cenário passa a grande velocidade. Quando os comandos começam a fazer sentido, revela-se um sistema preciso e muito satisfatório. Preparar uma curva, saltar no momento certo e terminar uma sequência arriscada com uma aterragem limpa produz uma sensação de domínio excelente. A estrutura está claramente pensada para melhorar tempos, cumprir objetivos secundários, manter combinações mais longas e atingir classificações superiores, os verdadeiros motores da experiência. É aqui que Denshattack! pega muito bem na lógica arcade associada à Dreamcast. Tal como acontecia em muitos jogos dessa época, as etapas são fáceis de compreender mas difíceis de dominar. Há sempre alguns segundos para retirar ao tempo final, uma manobra que podia ter sido mais ambiciosa ou uma aterragem que ainda não é perfeita.

Os confrontos contra “bosses” trazem escala e variedade. Em vez de abandonar as mecânicas principais, utilizam saltos, manobras e mudanças de carril como formas de ataque e defesa. Alguns encontros são memoráveis, tanto pela criatividade visual como pela forma como obrigam o jogador a dominar tudo o que aprendeu. Contudo, nem tudo é perfeito, e algumas sequências dependem demasiado da memorização. Certos obstáculos aparecem com pouca margem de reação e só se tornam verdadeiramente controláveis depois de uma primeira falha. Isso combina com a lógica de repetição do jogo, mas existem momentos em que a dificuldade parece nascer mais da falta de informação do que da exigência mecânica.

Acima de tudo, Denshattack! recupera aquela irreverência visual muito própria de certos jogos japoneses da era Dreamcast, onde o excesso visual e liberdade criativa eram parte essencial da identidade. Comboios acrobáticos, equipas rivais e traçados ferroviários impossíveis são apresentados com absoluta convicção, sem qualquer necessidade de justificar o absurdo. Essa segurança é comum a toda a direção artística e dá ao jogo uma personalidade imediata. As cores saturadas, os contornos vincados e os menus carregados de estilo aproximam cada etapa de um cartaz urbano em movimento. Os comboios têm desenhos exagerados, as personagens parecem saídas de uma série de animação e os cenários transformam o Japão futurista num espaço vibrante, estilizado e num espetáculo constante. A banda sonora completa essa identidade, com uma mistura de eletrónica, funk e batidas aceleradas que acompanha a velocidade sem se limitar a servir de fundo. A música ajuda a marcar curvas, saltos e sequências de manobras, criando uma relação quase natural entre som e movimento.

CONCLUSÃO

CONCLUSÃO
9 10 0 1
Denshattack! é uma das maiores surpresas independentes do ano. O estúdio espanhol Undercoders pegou numa ideia aparentemente impossível e transformou-a num jogo arcade rápido, preciso e tremendamente viciante. A combinação entre manobras, música e percursos ferroviários cria um ritmo próprio, enquanto o sistema de pontuação garante que praticamente todas as etapas merecem ser repetidas.
Denshattack! é uma das maiores surpresas independentes do ano. O estúdio espanhol Undercoders pegou numa ideia aparentemente impossível e transformou-a num jogo arcade rápido, preciso e tremendamente viciante. A combinação entre manobras, música e percursos ferroviários cria um ritmo próprio, enquanto o sistema de pontuação garante que praticamente todas as etapas merecem ser repetidas.
9/10
Total Score

Pontos positivos

  • Conceito irreverente e cheio de personalidade
  • Jogabilidade precisa, rápida e viciante
  • Grande incentivo a voltar a jogar múltiplas vezes
  • Excelente banda sonora

Pontos negativos

  • Enredo e personagens pouco desenvolvidos
  • Algumas sequências dependem demasiado da memorização

Nuno Nêveda

Calorias, nutrientes e Nintendo. Três palavras que definem o maior fã de F-Zero cá do sítio. Adepto de hábitos alimentares saudáveis, quando não anda atrás de uma balança, costuma estar ocupado com as notícias mais prementes e as análises mais exigentes.

Subscrever
Notificar de
0 Comentários
Mais Antigo
Mais Recente Mais Votado
Ver todos os comentários
Privacy Overview
Starbit

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.

Strictly Necessary Cookies

Strictly Necessary Cookie should be enabled at all times so that we can save your preferences for cookie settings.