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Néro & Sci ∫ Integral Edition – Análise

A matemática já foi utilizada em vários jogos de lógica, mas raramente ocupa um lugar tão central como em Néro & Sci ∫ Integral Edition. Desenvolvido pela produtora francesa Souris-Lab, este jogo combina plataformas em duas dimensões com enigmas construídos em torno de operações, formas geométricas e relações lógicas. Foi lançado originalmente para Nintendo Switch e PC em 2021, apresentando-se agora numa versão revista e reformulada.

Para além da alteração do nome, esta edição apresenta uma interface redesenhada, um sistema de salvaguarda melhorado, novos pontos de controlo, alterações no combate e enigmas adicionais. Foram também acrescentados novos idiomas às traduções, embora o português continue ausente. A aventura decorre em Héméide, um mundo construído a partir de números, símbolos e formas geométricas. Néro é um jovem Synapsian que encontrou abrigo na biblioteca de Psyga. Enquanto organiza a cave, deixa cair o frasco onde Sci estava aprisionada e derruba um livro que liberta as Teorias do Caos. Néro e Sci acabam transportados para as cavernas de Héméide e terão de colaborar para encontrar uma saída e restaurar a ordem. O enredo funciona essencialmente como ligação entre as diferentes regiões, deixando o protagonismo para os enigmas e para a exploração. Existem personagens secundárias, pequenas tarefas e informações adicionais sobre o mundo, mas o enredo mantém-se relativamente simples. A relação entre Néro e Sci transmite alguma simpatia, embora o jogo pudesse ter aproveitado melhor a duração da aventura para desenvolver a ligação entre as duas personagens.

A campanha encontra-se distribuída por quatro mundos e trinta e seis níveis, aos quais se juntam seis fases secretas com desafios mais exigentes. Cada região apresenta novas regras, obstáculos e conceitos matemáticos. Apesar das diferenças visuais entre os mundos, os números e as formas geométricas permanecem integrados nos cenários e na construção dos enigmas. Néro assume a componente mais tradicional de um jogo de plataformas. Pode correr, saltar, enfrentar inimigos e interagir diretamente com vários mecanismos. Sci desloca-se livremente pelo cenário, transporta blocos, manipula objetos e revela informações necessárias para compreender os desafios. Quando jogamos sozinhos controlamos Néro com um dos manípulos e Sci com o outro. A dificuldade não está apenas em perceber a solução, mas também em coordenar duas personagens com formas de movimento completamente diferentes. Esta divisão é especialmente evidente quando precisamos de deslocar Néro entre plataformas enquanto Sci transporta um objeto ou prepara o mecanismo seguinte. Nos primeiros níveis é fácil perder o controlo de uma das personagens, mas a progressão gradual permite compreender as funções de ambas sem sobrecarregar o jogador. O jogo pode também ser completado em multijogador cooperativo local, onde um jogador controla Néro e o outro Sci, permitindo que cada um se concentre numa parte do problema. A cooperação combina bem com a natureza dos desafios, mas as tarefas não são equivalentes. Néro é responsável pelo movimento, pelo combate e pela maior parte dos perigos diretos, enquanto Sci se concentra na observação e na manipulação dos elementos do cenário. Esta diferença pode tornar a experiência menos interessante para quem controla Sci durante as secções com pouca interação matemática. Ainda assim, perante os enigmas mais elaborados, a divisão das funções torna-se útil e ajuda a evitar a confusão provocada pelo controlo simultâneo das duas personagens.

A principal capacidade de Sci chama-se “White Dimension” e é uma das ideias mais interessantes do jogo. Quando é ativada, o cenário perde a maior parte da sua apresentação visual e destaca os elementos relevantes para a resolução do enigma. Objetos que pareciam ser apenas parte da decoração podem representar valores, operações ou instruções. Não sabemos imediatamente a solução mas percebemos quais as peças importantes e a relação existente entre elas. Em alguns desafios, a posição ou a forma de vários símbolos indica a ordem pela qual devemos ativar mecanismos. Noutros é necessário reposicionar objetos até que os valores apresentados cumpram uma determinada condição. Em vez de separar a matemática do cenário através de menus ou perguntas isoladas, os problemas são integrados no espaço. Os primeiros níveis utilizam conceitos acessíveis, relacionados com operações básicas e reconhecimento geométrico. Gradualmente o jogo introduz problemas com várias etapas, obrigando a relacionar informações. Não é necessário ter conhecimentos matemáticos avançados para terminar a campanha principal. Na maioria das situações, observar o cenário e compreender a regra apresentada é mais importante do que realizar cálculos complexos.

Os desafios opcionais aumentam consideravelmente a dificuldade. Alguns exigem maior capacidade de abstração e podem tornar-se frustrantes para quem tenha pouca afinidade com matemática ou apenas procure uma experiência de plataformas. O jogo começa geralmente por mostrar um conceito numa situação simples e só depois o combina com outras mecânicas ou o aplica num cenário mais complexo. Quando não conseguimos avançar, podemos utilizar maçãs para receber uma pista de Sci. Estas sugestões tentam orientar o raciocínio sem apresentar diretamente a solução. A ajuda é suficiente para resolver muitos bloqueios, embora nem sempre acompanhe a complexidade dos desafios mais avançados. A Souris-Lab disponibiliza uma secção de guias no seu site, mas a necessidade de abandonar o jogo para procurar uma explicação interrompe inevitavelmente o ritmo da experiência. Os níveis incluem também personagens escondidas, moedas e desafios secundários. As “Light Coins” permitem desbloquear e melhorar capacidades, incluindo novos ataques e opções de movimentação. Alguns elementos só ficam acessíveis depois de adquirirmos determinadas habilidades, o que incentiva a regressar a fases anteriormente concluídas. A repetição permite recolher recursos, completar objetivos e encontrar áreas que não estavam disponíveis durante a primeira passagem. Encontrar as personagens escondidas e completar os objetivos opcionais contribui ainda para desbloquear níveis secretos e preencher o compêndio com informações sobre Héméide e os conceitos encontrados ao longo da aventura. É uma recompensa para quem quer explorar completamente os cenários. No entanto, a quantidade de moedas exigida para algumas melhorias pode obrigar a repetir níveis já concluídos, o que torna a progressão algo artificial.

O combate ocupa uma posição secundária. Néro pode atacar diretamente os inimigos e desbloquear novos movimentos enquanto Sci pode utilizar os objetos presentes nos cenários para impedir ou dificultar a aproximação de algumas ameaças. Existem também confrontos com “bosses”, onde os ataques são combinados com operações matemáticas, ativação de mecanismos e manipulação das plataformas. Estes momentos procuram unir as diferentes componentes do jogo, mas nem sempre apresentam a mesma qualidade dos enigmas principais. Os inimigos comuns têm comportamentos bastante previsíveis e raramente obrigam a utilizar todas as capacidades. O combate introduz alguma variedade mas funciona mais como um obstáculo entre desafios do que como um sistema com verdadeira profundidade. A componente de plataformas apresenta igualmente algumas limitações. Néro demora algum tempo a ganhar velocidade e certos saltos exigem uma preparação maior do que sugerem. Esta resposta mais pesada torna-se incómoda nas secções que exigem mudanças rápidas de direção ou saltos consecutivos. O problema não impede a progressão, mas torna estas sequências menos naturais do que a resolução dos enigmas.

Os pontos de controlo foram reformulados para esta edição e encontram-se agora distribuídos ao longo dos níveis. Quando abandonamos uma fase, podemos regressar ao último ponto alcançado sem perder as capacidades e os recursos já obtidos. É uma alteração importante, sobretudo porque algumas fases são extensas e reúnem vários desafios consecutivos. A possibilidade de interromper uma sessão sem repetir todo o percurso torna a experiência mais adequada à utilização portátil da Nintendo Switch. Visualmente o jogo apresenta uma identidade imediatamente reconhecível. As personagens são construídas através de formas abstratas, cores fortes e olhos muito expressivos. Os próprios cenários utilizam círculos, linhas, quadrados e símbolos matemáticos como elementos da arquitetura. A matemática não surge apenas nos enigmas, fazendo parte do desenho do mundo e da identidade das diferentes criaturas. As quatro regiões apresentam ambientes suficientemente distintos para marcar a progressão. Algumas apostam em espaços mais naturais, enquanto outras dão maior destaque às estruturas geométricas e aos mecanismos presentes nos cenários.

A passagem para a “White Dimension” altera completamente a leitura do ambiente. Ao retirar os elementos menos relevantes, o jogo conduz a atenção para as formas e relações que precisamos de interpretar, ligando a direção artística à mecânica de jogabilidade. As animações são simples mas encaixam bem no aspeto abstrato das personagens. Os olhos e os movimentos corporais transmitem emoções sem depender de modelos pormenorizados. A banda sonora vive no segundo plano e acompanha a exploração, deixando espaço para que o jogador se concentre nas pistas visuais e no raciocínio. Esta opção adequa-se ao ritmo do jogo, embora resulte em poucos temas marcantes. O ambiente sonoro cumpre a sua função mas dificilmente fica na memória depois de terminada a campanha. O desempenho é globalmente estável, tanto no ecrã da Switch como numa televisão. A interface e os principais símbolos utilizados nos enigmas são legíveis no ecrã da consola, e os problemas mais relevantes não estão relacionados com a fluidez mas com a resposta da componente de plataformas. A maior parte dos enigmas permite avançar sem pressão de tempo, evitando que estas limitações se tornem constantes, mas algumas sequências de maior precisão expõem as fragilidades do movimento. A falta de tradução para português destaca-se num jogo que também tem uma dimensão educativa. Os símbolos matemáticos são universais mas as explicações, os diálogos e as pistas dependem da compreensão do texto. É possível jogar em inglês, francês, espanhol, alemão, japonês e noutros idiomas, mas quem não dominar uma das línguas aqui presentes poderá ter dificuldade em compreender as regras de alguns enigmas.

CONCLUSÃO

CONCLUSÃO
7 10 0 1
Néro & Sci ∫ Integral Edition recupera A Tale of Synapse numa versão mais cuidada, corrigindo algumas das limitações da edição original e mantendo a matemática como elemento central da experiência, transformando os próprios cenários em problemas que precisam de ser observados e interpretados. A variedade de desafios e a possibilidade de jogar em modo cooperativo contribuem para fazer desta uma obra digna de destaque. Já quem procure ação ou um jogo de plataformas particularmente preciso pode perder rapidamente o interesse. Para jogadores que apreciem lógica, observação e desafios em torno de números e formas, Néro & Sci ∫ Integral Edition apresenta uma experiência original e variada.
Néro & Sci ∫ Integral Edition recupera A Tale of Synapse numa versão mais cuidada, corrigindo algumas das limitações da edição original e mantendo a matemática como elemento central da experiência, transformando os próprios cenários em problemas que precisam de ser observados e interpretados. A variedade de desafios e a possibilidade de jogar em modo cooperativo contribuem para fazer desta uma obra digna de destaque. Já quem procure ação ou um jogo de plataformas particularmente preciso pode perder rapidamente o interesse. Para jogadores que apreciem lógica, observação e desafios em torno de números e formas, Néro & Sci ∫ Integral Edition apresenta uma experiência original e variada.
7/10
Total Score

Pontos positivos

  • Integração original da matemática nos enigmas
  • “White Dimension” bem aproveitada
  • Boa progressão e variedade dos desafios
  • Ligação entre a direção artística e a jogabilidade

Pontos negativos

  • Componente de plataformas pouco ágil
  • Combate simples e pouco desenvolvido
  • Alguns desafios opcionais bastante exigentes
  • Falta de tradução para português

Sérgio Mota

Após passar grande parte da sua infância em Hyrule e no Mushroom Kingdom dedica-se agora a explorar o vasto universo digital que o rodeia. Embora seja entusiasta de novos títulos é possível encontrá-lo frequentemente a revisitar os clássicos.

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