Another Eden Begins – Análise
Another Eden Begins tem uma origem pouco habitual para um JRPG de consola. Em vez de nascer diretamente como uma aventura tradicional, parte de Another Eden: The Cat Beyond Time and Space, um projeto feito para dispositivos móveis e pensado para crescer ao longo do tempo. A adaptação para consola procura resolver precisamente o que mais facilmente afastaria muitos jogadores desse formato: elimina a componente “gacha”, reorganiza a progressão, e transforma a experiência numa campanha que pode ser jogada de princípio a fim sem depender da sorte, eventos temporários ou compras adicionais. As origens continuam visíveis em vários momentos, sobretudo no desenho dos mapas e em certas missões, mas já não determinam o que o jogo é. Existe aqui um JRPG bastante convencional, com combate por turnos, viagens no tempo, muitas personagens e uma estrutura confortável que encaixa especialmente bem numa consola portátil.

O enredo acompanha Aldo e a irmã Feinne, cuja vida relativamente tranquila é interrompida quando é levada pelos Beastfolk. O que começa como uma missão de resgate muda rapidamente de escala quando Aldo é lançado centenas de anos para o futuro e percebe que o acontecimento está ligado a eventos muito maiores. A partir daí, passado, presente e futuro começam a cruzar-se de forma constante, permitindo ao jogo mudar de cenário, sociedade e ambiente sem abandonar completamente o mesmo mundo. As comparações com Chrono Trigger aparecem de forma quase inevitável, não apenas por causa das viagens no tempo mas também pela presença de Masato Kato na escrita e de Yasunori Mitsuda na banda sonora. Ainda assim, Another Eden Begins é muito mais simples na forma como utiliza essas ideias e nunca transmite verdadeiramente aquela sensação de estar perante uma aventura capaz de surpreender a qualquer momento. O enredo funciona, tem bons momentos e consegue manter interesse durante grande parte da campanha, mas raramente sai de caminhos bastante seguros.
O elenco segue uma lógica semelhante. Aldo é um protagonista fácil de acompanhar e Feinne dá imediatamente uma motivação pessoal à viagem, enquanto algumas das personagens que se juntam à equipa conseguem criar momentos divertidos ou interessantes. O problema é que nem todas recebem o mesmo espaço, e isso torna-se mais evidente à medida que o grupo cresce. Algumas parecem entrar na aventura com peso narrativo autêntico, enquanto outras dão a sensação de terem sido adaptadas de uma estrutura originalmente pensada para acrescentar novos elementos de forma contínua. As missões dedicadas a cada personagem corrigem parte desse problema e revelam pormenores que não aparecem na história principal, mas o desenvolvimento continua irregular. Há personagens com quem é fácil criar ligação e outras que passam pela equipa sem deixar grande marca.

O combate é um dos aspetos mais competentes. Continua baseado em turnos, mas mantém um ritmo suficientemente rápido para evitar que os encontros normais se tornem demasiado demorados. Cada personagem tem funções próprias, existem ataques baseados em elementos, “buffs”, “debuffs” e várias combinações possíveis entre habilidades, enquanto a troca de elementos durante os confrontos permite adaptar a estratégia sem ficar completamente preso à formação escolhida antes da batalha. Também existe preocupação em limitar o número de capacidades disponíveis, obrigando a decidir quais fazem realmente sentido para determinada personagem. A Another Force dá alguma personalidade ao sistema. Quando a barra está disponível, é possível executar várias habilidades numa sequência rápida e causar grandes quantidades de dano antes que o adversário responda. Contra “bosses”, utilizar esta mecânica no momento certo pode alterar o panorama e há situações em que preparar essa janela é mais importante do que aumentar níveis. As Chain Skills procuram aprofundar ainda mais as possibilidades entre personagens, embora o jogo nem sempre consiga aproveitar plenamente o que construiu. Parte desse problema vem da dificuldade bastante baixa durante grande parte da campanha. Muitos encontros podem ser resolvidos através das mesmas habilidades sem exigir grande atenção às fraquezas, à composição da equipa ou às possibilidades oferecidas pela Another Force. Há aqui sistemas suficientemente interessantes para sustentar um combate mais exigente, mas durante demasiadas horas o jogador raramente sente a necessidade de os dominar. Só alguns “bosses” e desafios mais avançados começam finalmente a mostrar o que o sistema poderia ter pedido com maior frequência.
A exploração é a área onde a origem do jogo continua mais difícil de ignorar. Os cenários são agradáveis, sobretudo porque as diferentes épocas permitem mudar constantemente a arquitetura, as cores e o ambiente, mas os mapas raramente apresentam grande complexidade. Normalmente existem alguns caminhos laterais, baús espalhados e pequenos desvios antes de chegar ao próximo destino, sem grandes “puzzles” ou situações que obriguem verdadeiramente a estudar o espaço. As cidades também seguem esta filosofia, e funcionam melhor como locais de passagem entre missões do que como espaços que apetece explorar demoradamente. Não chega a ser um problema grave porque o ritmo é relativamente lesto e as viagens rápidas reduzem bastante o tempo perdido em deslocações, mas quem procura masmorras elaboradas ou áreas cheias de segredos vai ter aqui uma experiência bastante mais simples.

As missões secundárias também são algo repetitivas. Muitas começam com uma conversa, levam Aldo para outra zona, obrigam a encontrar um objeto ou a derrotar inimigos, e terminam com o regresso à personagem inicial. Existem histórias interessantes pelo meio, e várias ajudam a dar mais contexto ao mundo ou ao elenco, mas a estrutura raramente surpreende. Ainda assim, Another Eden Begins tem a inteligência de não transformar estas tarefas numa obrigação permanente e a campanha principal mantém normalmente um bom andamento. É perfeitamente possível concentrar-se na história e deixar uma parte do conteúdo opcional para mais tarde, o que evita a sensação de estar constantemente a interromper a aventura para limpar uma lista enorme de tarefas. A campanha principal pode chegar às 30 horas, dependendo do tempo dedicado às missões secundárias e da forma como se explora as épocas. Há conteúdo adicional suficiente para fazer durar mais, e o New Game+ oferece uma razão para regressar depois do final, sobretudo para quem quiser descobrir outras possibilidades narrativas ou continuar a desenvolver a equipa. Não é um daqueles JRPG que parece interminável, e isso acaba por ser uma vantagem. A aventura tem espaço suficiente para desenvolver o seu mundo sem transformar cada ideia numa obrigação de dezenas de horas.
Visualmente, o jogo acaba por tirar bastante partido da sua simplicidade. As personagens apresentam um desenho mais pequeno e algumas animações são simplistas, mas os fundos são bastante bonitos e as mudanças de época dão à aventura uma variedade que compensa parte das limitações técnicas. Há regiões com uma identidade vincada e algumas paisagens funcionam particularmente bem no ecrã da Switch. Em televisão, nota-se facilmente que alguns elementos foram pensados para um dispositivo móvel, sobretudo na construção dos mapas e em alguns pormenores da interface, mas a direção artística mantém encanto suficiente para que isso raramente se torne incomodativo. A banda sonora é uma das componentes mais fortes e ajuda muito a dar personalidade aos locais visitados. A mudança entre períodos permite passar por composições mais tradicionais, temas mais melódicos e ambientes eletrónicos sem que pareça incoerente. Mesmo quando um cenário não é particularmente memorável, a música consegue muitas vezes dar-lhe outra presença. É também uma das áreas onde o peso dos nomes associados ao projeto se sente de forma mais imediata, embora o jogo nunca dependa apenas deles para funcionar.
CONCLUSÃO
CONCLUSÃOPontos positivos
- Combate por turnos com algumas boas ideias
- Ausência da componente "gacha" melhora bastante a progressão
- Banda sonora de grande qualidade
Pontos negativos
- Mapas demasiado simples
- Missões secundárias repetitivas
- Desenvolvimento irregular de algumas personagens
- Origens continuam demasiado visíveis

Calorias, nutrientes e Nintendo. Três palavras que definem o maior fã de F-Zero cá do sítio. Adepto de hábitos alimentares saudáveis, quando não anda atrás de uma balança, costuma estar ocupado com as notícias mais prementes e as análises mais exigentes.

