AnálisesSwitch

Tomodachi Life: Living the Dream – Análise

Se Animal Crossing é uma simulação do quotidiano onde vivemos experiências comuns que se revestem de pequenos objetivos, Tomodachi é uma experiência feita à base de caprichos do jogador aplicados às suas personagens. Na verdade, a comparação seria injusta, já que Tomodachi segue um caminho muito próprio e que não se leva demasiado a sério. Depois de dois jogos para a Nintendo DS e 3DS, e um RPG no mesmo universo que teve direito a um “remake” para a Nintendo Switch em 2021, Tomodachi Life: Living the Dream é o capítulo mais recente na série que parte de uma ideia simples, mas invulgar: e se os Mii tivessem vidas influenciadas pela vontade do jogador?

No papel de criador, arquiteto e administrador, o jogador vai criar vários Mii para povoar uma pequena ilha. Cada Mii tem a sua personalidade e os seus gostos, e vai viver a sua própria vida em interação com os outros Mii, vida essa que pode ser divertida, tensa ou indiferente. A criação de cada Mii é simples e acessível, dentro dos limites a que estas personagens estão sujeitas. Não se tratando de um retrato sério da vida real, é perfeitamente plausível criar Mii com base em pessoas reais ou fictícias e dar-lhes nomes e características físicas e psicológicas condizentes. Cada caso é um caso, e se quisermos realmente que a nossa ilha seja mais divertida, é recomendável fazer de cada Mii alguém único e sem repetir demasiadas características.

Enquanto os Mii vivem o seu quotidiano, o jogador observa o que se passa e certifica-se que os habitantes estão contentes. Quem preferir uma abordagem mais distante e deixar as suas criações fazer o que lhes dá na gana vai ter a vida complicada, já que o jogo nos incentiva (e muito) a pôr a mão na massa para nos certificarmos que a vida dos Mii corre bem. Vamos assim dar uma casa às nossas criações, comprar-lhes roupa, alimentá-los, jogar com eles em minijogos curtíssimos, apresentá-los uns aos outros, ajudá-los quando têm dúvidas, mudar-lhes a decoração da casa, oferecer-lhes presentes… e de vez em quando é preciso metê-los de pé quando eles caem para o lado por terem pensado em algo mau ou estão a ter pesadelos. Não, eles não são criaturazinhas dependentes do jogador 24 horas por dia, pelo que não temos de ter medo de desviar o olhar por um instante. Vamos, isso sim, intervir aqui e ali, por vezes de forma mais discreta, para que os nossos Mii vivam contentes e possam desenvolver as suas relações uns com os outros – eventualmente, até formarem casais, viverem juntos, e terem filhos se assim o quisermos. Living the Dream acerta na fórmula de atenção necessária que devemos dedicar a cada Mii, já que esta podia facilmente tornar-se excessiva.

À medida que satisfazemos as necessidades dos nossos Mii e os tornamos mais felizes, o nível da ilha sobe graças a uma fonte de desejos. Quanto mais o nível da ilha subir, mais opções podemos desbloquear que permitem construir novas infraestruturas, adicionar novos recursos (como lojas que vendem mais materiais e objetos), criar novos elementos para os nossos Mii, recompensá-los de forma generosa, etc. E é assim que a ilha cresce, de meia-dúzia de habitantes no início da experiência com acesso a pouco mais do que um pequeno supermercado e loja de roupa, a várias dezenas de habitantes com o seu próprio telejornal e com uma roda gigante, por exemplo. Living the Dream está estruturado para ser vivido de forma relativamente livre, por isso e embora existam ações recorrentes que devemos seguir, os Miis que acrescentamos, as novas estruturas que construímos e a gestão que fazemos são decisões que cabem inteiramente ao jogador. Além disso, a progressão não é restrita a fazer A para ter acesso a B. Um número pequeno de Mii mas com relações pessoais bastante desenvolvidas pode trazer mais recompensas do que um número mais alto de habitantes mas com relações mais superficiais. Isto tem também uma implicação importante: o jogo nunca é exatamente idêntico para toda a gente. A base da experiência é a mesma, mas o número de variáveis aqui presente significa que todos vão poder vivenciar Living the Dream de forma distinta e pessoal, o que é muito bem-vindo.

E como funciona tudo isto? Felizmente as interações, curtas e simples, permitem-nos realizar muita coisa num espaço de tempo pequeno. Tudo é bastante acessível e fácil de compreender, e a interação decorre de maneira imediata e sem percalços. Algumas funções permitem usar o ecrã tátil da consola, o que é bastante útil quando estamos a trabalhar em criações para os nossos Mii, como desenhos ou padrões em peças de roupa ou motivos de decoração para as suas casas, mas seria bem-vindo termos mais possibilidades para o fazer em vez dos limites que o jogo impõe. Talvez o mais estranho seja o uso das vozes. Cada Mii tem a sua própria voz que podemos definir e personalizar, e as suas frases são vocalizadas. Isto pode parecer muito interessante (não são muitos os jogos da Nintendo com esta característica) mas passada a impressão inicial, intencionalmente cómica, as vozes dos Mii tornam-se bastante repetitivas, mesmo que tenham a sua piada. Felizmente é possível alterar os parâmetros de voz para cada Mii, o que inclui deixá-los mudos. Living the Dream é também uma experiência muito mais aconselhável para viver em sessões mais curtas, já que ir além de uma hora de cada vez corre o risco de se tornar demasiado rotineiro, e em vez de descobrirmos com interesse quais as recompensas que vamos desbloquear, começamos a abordar o jogo como se de uma lista de tarefas penosas se tratasse. Neste aspeto, importa realçar: Living the Dream é mais divertido quando o jogamos de forma descontraída e deixando a experiência correr ao seu próprio rumo; seguir uma abordagem demasiado estruturada e com objetivos fixos é meio caminho andado para uma experiência repetitiva e aborrecida.

Graças a uma direção artística simples, mas muito colorida e simpática, Living the Dream não impõe um desempenho demasiado pesado à Switch, nem nos deixa com os olhos e os ouvidos fixos num determinado pormenor. É verdade que o ambiente audiovisual não é deslumbrante, mas estamos num jogo que trata sobre a vida dos Mii, pelo que não faria sentido estarmos perante um grafismo extremamente complexo e bandas sonoras orquestrais e grandiosas. O aspeto que faz lembrar um pequeno mundo de brinquedo e uma banda sonora cómica e animada encaixam perfeitamente no conceito do jogo. Por outras palavras, Living the Dream tem o ambiente audiovisual que devia ter. Acima de tudo, Tomodachi Life: Living the Dream dá-nos autonomia suficiente para gerirmos a vida dos Mii de uma forma interessada, mas que não se torna tirânica, com o envolvimento necessário para que seja possível desenvolver a ilha, mas sem nos obrigar a determinar todos os passos de cada habitante. O jogo incentiva o jogador a ser criativo com os Mii e com os aspetos da sua vida, o que pode exigir algum tempo se quisermos que tudo tenha um ar verdadeirmante único – afinal, desenhar roupas e mobílias personalizadas para cada Mii exige um pouco do jogador. Se é verdade que algumas atividades são bastante superficiais – os minijogos, por exemplo – e as vozes são algo estranhas, há sempre uma boa dose de satisfação que vivenciamos quando recebemos elementos novos, vemos a ilha a crescer e os habitantes tornam-se mais próximos, ainda que a intensidade seja sempre simples e ligeira.

CONCLUSÃO

CONCLUSÃO
7 10 0 1
Divertido sem ser empolgante, criativo e muitíssimo personalizável sem ser manipulador, Tomodachi Life: Living the Dream acerta em praticamente tudo o que propõe fazer, e fá-lo seguindo uma fórmula suficientemente bem apurada que não se torna demasiado aborrecida ou rotineira se não a levarmos demasiado a sério. Se é verdade que funciona melhor em sessões mais curtas, o que aqui temos é uma bela forma de responder à pergunta 'e se os Mii tivessem as suas vidas?', onde o jogador é incentivado a ajudar os seus Mii a tornar-se mais felizes. Inevitavelmente, encontra-se alguma repetição à medida que avançamos, mas Living the Dream sabe o que faz e sabe motivar o jogador a realizar tarefas triviais e a testemunhar atos cómicos e absurdos.
Divertido sem ser empolgante, criativo e muitíssimo personalizável sem ser manipulador, Tomodachi Life: Living the Dream acerta em praticamente tudo o que propõe fazer, e fá-lo seguindo uma fórmula suficientemente bem apurada que não se torna demasiado aborrecida ou rotineira se não a levarmos demasiado a sério. Se é verdade que funciona melhor em sessões mais curtas, o que aqui temos é uma bela forma de responder à pergunta 'e se os Mii tivessem as suas vidas?', onde o jogador é incentivado a ajudar os seus Mii a tornar-se mais felizes. Inevitavelmente, encontra-se alguma repetição à medida que avançamos, mas Living the Dream sabe o que faz e sabe motivar o jogador a realizar tarefas triviais e a testemunhar atos cómicos e absurdos.
7/10
Total Score

Pontos positivos

  • Muito envolvente, criativo e personalizável
  • Bastante motivante para ajudar os nossos Mii
  • Tom cómico e absurdo das personagens
  • Personagens e relações bastante inclusivas
  • Muito simples para jogadores menos experientes

Pontos negativos

  • Minijogos demasiado curtos
  • Vocalizações perdem piada rapidamente
  • Algumas interações tornam-se repetitivas
  • Sem tradução em português

João Dias

Apreciador de jogos de outras épocas, não diz que não a uma boa obra dos nossos tempos. Diz-se que é por ele que passam os textos antes da publicação, o que significa que é uma espécie de boss final da escrita para os outros membros da equipa.

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