Yoshi and the Mysterious Book – Análise
Yoshi and the Mysterious Book chega à Nintendo Switch 2 com uma ideia forte logo à partida: transformar cada nível numa página viva, habitada por criaturas invulgares, repleta de pequenas mecânicas, e construída como se o próprio livro se fosse inventando à medida que é folheado. É um conceito que assenta muito bem na personagem porque lhe permite regressar a um registo curioso e imaginativo, sem depender da fórmula habitual de um jogo plataformas colorido de que a série já mostra sinais de cansaço. Em vez de pegar no costume e dar-lhe um novo material, a Good-Feel muda a própria fórmula, e o resultado é o jogo mais experimental da série Yoshi desde há muito, muito tempo, e também o primeiro jogo publicado pela Nintendo desenvolvido com o Unreal Engine 5, o que por si só merece atenção.

A premissa parte de um encontro improvável entre Yoshi e o Sr. E, uma enciclopédia mágica falante que perdeu a memória e com ela, todo o conhecimento sobre as criaturas que habitavam as suas páginas. Yoshi é recrutado como investigador de campo e levado para o interior do livro, onde a sua missão é explorar cada capítulo, interagir com as criaturas que encontra e devolver ao Sr. E os dados suficientes para restaurar as suas entradas. É uma estrutura simples mas eficaz para justificar o que Mysterious Book é, um jogo de observação e experimentação, em vez da mais convencial ação em plataformas. Não há vidas, não há inimigos que façam mal. Há páginas para explorar, criaturas para estudar e um guia de campo para preencher.

O primeiro impacto é muito positivo. O mundo do livro dá ao jogo uma liberdade criativa evidente e constrói a sua identidade de forma eficaz. Cada página parece existir com as suas próprias regras, o seu truque particular e o seu ambiente específico, o que faz com que a progressão tenha um sabor de descoberta difícil de replicar em jogos mais convencionais. Em vez de uma série de níveis lineares com um tema simpático colado por cima, Yoshi and the Mysterious Book tenta fazer de cada área um pequeno espaço de interação que se abre e reorganiza à medida que o jogador experimenta. Essa abordagem funciona sobretudo porque combina com o ritmo natural da série em que Yoshi nunca precisou de ser um jogo de plataformas agressivo para ser interessante.

A jogabilidade apoia-se no que já se conhece bem da personagem. O salto flutuante mantém-se fulcral, os ovos continuam com utilidade prática, e os elementos do cenário servem tanto para ultrapassar obstáculos como para encontrar caminhos alternativos e segredos. O jogo é imediatamente acessível, o que o torna fácil de recomendar a um público mais jovem ou a quem procura uma aventura mais tranquila. Essa mesma acessibilidade é também uma das suas limitações mais evidentes. Há muito poucas alturas em que Mysterious Book parece disposto a apertar o jogador ou a exigir mais do que atenção básica e alguma curiosidade. Em vez de crescer em desafio ao longo de cerca de seis a sete horas de campanha (que pode duplicar de duração pós-créditos), vai crescendo quase sempre apenas em variedade superficial, o que mantém a experiência agradável mas raramente a eleva a algo mais.

Esse padrão torna-se mais visível à medida que os capítulos avançam. A ideia do livro vivo continua simpática, os níveis continuam bem apresentados e o jogo nunca perde completamente o seu encanto, mas começa a instalar-se uma sensação de progressão que não cresce o suficiente. As boas ideias raramente são levadas tão longe quanto deveriam. Certos conceitos mecânicos aparecem, deixam boa impressão, e desaparecem antes de terem verdadeiramente respirado. O jogo parece satisfeito em apresentar uma ideia com graça, explorá-la o suficiente para encantar, e virar a página. Isso mantém a aventura fresca durante bastante tempo, mas também impede que ela alcance um nível realmente memorável. Quem espera que o jogo vá crescendo em densidade e surpresa ao longo da campanha vai ficar com a sensação de que as melhores páginas ficaram todas no início do livro.

Visualmente, o jogo cumpre com distinção o que promete. A Good-Feel utilizou o Unreal Engine 5 para simular a estética de livros ilustrados pintados à mão, com texturas que evocam aguarela sobre papel e uma animação com qualidade de “stop motion” que empresta a cada criatura uma leveza muito própria. Há personalidade em quase tudo, na forma como os cenários parecem montados como ilustrações com volume, na maneira como os objetos se integram no tema do livro, na forma como Yoshi encaixa naturalmente em mundos que parecem feitos de imaginação mais do que de lógica. O resultado não impressiona pela força técnica no sentido mais puro, mas impressiona pela coerência com que usa o conceito para construir um ambiente reconhecível e consistente. A banda sonora de Kumi Tanioka é adequada ao tom do jogo e raramente desafina, embora dificilmente fique na memória com a mesma persistência com que ficam as melhores imagens que acompanha.
O grande problema de Yoshi and the Mysterious Book é que se fica demasiadas vezes pela simpatia. É fácil gostar dele. É fácil apreciar o conceito e o cuidado com que foi construído. O mais difícil é sair com a sensação de ter jogado algo realmente marcante. Não porque falhe de forma evidente, mas porque raramente desafia o jogador. Raramente complica, tudo está bem feito e tudo está bem intencionado, mas quase tudo parece jogar demasiado pelo caminho da acessibilidade, e isso acaba por travar um jogo que tinha, nos seus melhores momentos, potencial para ser muito mais do que bom.
CONCLUSÃO
CONCLUSÃOPontos positivos
- Conceito do livro vivo muito conseguido e bela estética visual
- Estrutura de investigação com criaturas dá-lhe uma identidade nova
- Ideal para sessões descontraídas
Pontos negativos
- Falta de desafio ou progressão de dificuldade
- Banda sonora competente mas aquém da qualidade visual

Calorias, nutrientes e Nintendo. Três palavras que definem o maior fã de F-Zero cá do sítio. Adepto de hábitos alimentares saudáveis, quando não anda atrás de uma balança, costuma estar ocupado com as notícias mais prementes e as análises mais exigentes.

