Dragon Quest XI S: Echoes of an Elusive Age – Definitive Edition – Análise
Dragon Quest XI surgiu numa altura em que muitos RPG japoneses procuravam modernizar as suas fórmulas. A Square Enix decidiu fazer praticamente o contrário: manteve os combates por turnos, as cidades cheias de personagens, as masmorras, os monstros e uma história sobre um jovem destinado a salvar o mundo. O resultado foi um dos JRPG mais marcantes da sua geração, capaz de recuperar o encanto das grandes aventuras japonesas sem parecer ultrapassado. A Definitive Edition, lançada na Nintendo Switch em 2019, acrescentou conteúdos e melhorias que fizeram dela a edição mais completa do jogo. Agora com uma versão dedicada na Switch 2, regressamos a Erdrea para descobrir se a maior fluidez e a melhoria da imagem são argumentos suficientes para justificar uma nova viagem, sobretudo para quem já conhece bem a aventura.

O enredo acompanha um jovem que descobre ser o Luminary, uma figura lendária cuja existência está ligada ao destino de Erdrea. Depois de abandonar a aldeia onde cresceu, acaba envolvido numa viagem que o leva por diferentes reinos, cidades e territórios, encontrando personagens que se juntam à sua missão e outras que colocam constantemente em causa o que se sabe sobre o mundo. O início é convencional e quem estiver habituado ao género vai reconhecer grande parte das situações, mas Dragon Quest XI tem a capacidade de desenvolver um enredo aparentemente simples até chegar a momentos muito mais interessantes. O enredo prefere construir lentamente as personagens e preparar acontecimentos que ganham verdadeiro significado muito mais tarde, em vez de apresentar surpresas extraordinárias de forma regular. A abordagem pede alguma paciência, mas funciona graças à consistência do universo e à forma como o jogo cria uma ligação com o grupo.
É também nas personagens que a aventura encontra grande parte da sua força. Erik, Veronica, Serena, Sylvando, Jade e os outros companheiros têm personalidades suficientemente distintas para que o grupo seja muito mais que um bando de heróis com habilidades diferentes. Sylvando continua a ser particularmente memorável, tanto pelo humor como pela forma como ganha importância ao longo do enredo, enquanto Veronica e Serena protagonizam alguns dos momentos mais emocionais da campanha. A Definitive Edition traz ainda episódios dedicados a determinados membros da equipa, permitindo conhecer melhor as suas experiências e dando algum contexto adicional a acontecimentos importantes. Nem todas as personagens passam exatamente pelo mesmo desenvolvimento, mas o conjunto funciona muito bem e é difícil chegar ao final sem criar alguma ligação a este grupo.

O combate mantém a estrutura da série praticamente intacta, com batalhas por turnos onde cada personagem pode atacar, utilizar magia, recorrer a objetos ou executar habilidades. A simplicidade inicial pode enganar, e com o avanço da campanha surgem combinações interessantes entre os membros da equipa. Erik pode especializar-se em armas distintas, Serena afirma-se naturalmente no apoio e recuperação de vida, enquanto Veronica traz capacidades ofensivas que podem alterar rapidamente o rumo de um confronto. As árvores de habilidades permitem orientar a evolução das personagens sem complicar demasiado a progressão, e há liberdade suficiente para experimentar estratégias ou alterar determinadas escolhas mais tarde. As Pep Powers acrescentam ainda ataques e efeitos especiais que dependem da combinação entre companheiros, o que torna os confrontos exigentes mais variados. Apesar disso, a dificuldade normal continua a ser um dos aspetos menos conseguidos. Durante grande parte da campanha basta manter a equipa relativamente desenvolvida e utilizar algumas habilidades mais eficazes para vencer a maioria dos inimigos sem grandes preocupações. Os “bosses” obrigam ocasionalmente a pensar melhor na formação e gestão dos recursos, mas o jogo demora muito tempo a exigir um domínio exímio dos seus sistemas. As Draconian Quests permitem acrescentar restrições e tornar a aventura muito mais exigente, e são uma alternativa interessante para quem conhece bem o género. Ainda assim, seria preferível que o equilíbrio normal mostrasse mais resistência, sobretudo numa campanha tão longa onde a repetição de batalhas mais acessíveis inevitavelmente faz-se sentir.
A exploração segue uma filosofia igualmente tradicional. Erdrea é um mundo extenso, com regiões variadas, cidades cheias de personalidade, masmorras e vários locais opcionais, embora a progressão seja quase sempre relativamente orientada. Não há aqui a liberdade de um verdadeiro mundo aberto, mas também não faz grande falta. Dragon Quest XI funciona melhor quando leva o jogador por uma sucessão de pequenas histórias, conhecendo os habitantes e percebendo os problemas que os afetam antes de continuar a missão principal. Algumas cidades são particularmente memoráveis, tanto pelo desenho como pelas situações, enquanto as áreas exteriores apresentam caminhos secundários, recursos e inimigos ao longo dos cenários. As missões opcionais são menos inspiradas e muitas continuam limitadas a procurar objetos ou derrotar determinados monstros, mas felizmente não ocupam demasiado espaço na progressão principal.

Uma das melhores características desta edição continua a ser a possibilidade de jogar em 2D, recuperando a apresentação dos clássicos da série. Não se trata apenas de substituir os modelos 3D por personagens em “pixel art”, porque os cenários e a exploração são adaptados a essa perspetiva. É quase outra maneira de realizar a mesma aventura, e representa uma excelente alternativa para quem cresceu com os JRPG dos anos 90. O conteúdo de Tickington reforça essa homenagem, permitindo visitar locais inspirados em jogos anteriores e completar pequenas missões que recuperam personagens e situações conhecidas dos fãs. São adições que ajudam a justificar a designação de Definitive Edition, e que continuam a dar ao conjunto uma quantidade de conteúdo pouco habitual.
Visualmente, Dragon Quest XI S continua a envelhecer muito bem, sobretudo graças à direção artística de Akira Toriyama. O desenho das personagens e dos monstros exibe uma identidade imediatamente reconhecível e dá personalidade até aos inimigos mais banais, enquanto as cidades e paisagens apresentam uma variedade que continua agradável de descobrir. É um estilo que nunca dependeu do realismo e por isso, resiste muito melhor à passagem do tempo do que outros RPG contemporâneos mais ambiciosos. A versão para Switch 2 beneficia de uma imagem mais limpa e de uma apresentação mais fluida, o que dá outra qualidade aos cenários e animações, mesmo que seja óbvio que o jogo foi originalmente desenvolvido numa geração anterior. A principal melhoria técnica está nos 60 fotogramas por segundo disponíveis no modo de desempenho, enquanto a opção de qualidade privilegia uma fluidez superior a 30 fps. Apesar de se tratar de um RPG por turnos, a diferença sente-se bastante durante a exploração, na movimentação das personagens e até na fluidez das animações. Percorrer Erdrea torna-se mais agradável, e o jogo apresenta-se de forma bastante mais confortável, sobretudo para quem passou muitas horas na versão para a Switch original. Em modo portátil a experiência também beneficia destas melhorias, e mantém uma apresentação muito competente no ecrã da Switch 2. A maior nitidez ajuda a valorizar o trabalho artístico, mas é sobretudo a fluidez adicional que torna esta edição mais interessante.

O problema é que a Square Enix parece ter ficado satisfeita com essas melhorias técnicas sem aproveitar a oportunidade para acrescentar algo mais. Não existem novos capítulos, nem alterações relevantes aos sistemas ou conteúdos adicionais para distinguir esta versão da de 2019. Para quem não a jogou, isso não é problemático, todo o conteúdo da Definitive Edition continua presente e há dezenas de horas de um excelente JRPG pela frente. Para quem tem o jogo na Switch original, o caso é diferente, sobretudo porque os dados de gravação não podem ser transferidos para esta nova edição. É uma decisão pouco feliz numa aventura desta dimensão, onde muitos jogadores poderão ter investido mais de uma centena de horas e dificilmente terão vontade de começar novamente para beneficiar apenas de uma apresentação mais fluida.
A banda sonora continua a acompanhar muito bem a aventura, com uma dimensão mais rica graças à interpretação orquestral. Estão aqui temas excelentes, sobretudo durante momentos importantes do enredo, embora a repetição de algumas faixas se torne evidente depois de tantas horas a atravessar as mesmas regiões. As vozes em inglês e japonês também contribuem para dar personalidade ao elenco, sobretudo quando o enredo assume um tom mais emocional. A campanha principal pode facilmente ultrapassar as 80 horas e chegar à centena para completar grande parte do conteúdo adicional, tornando Dragon Quest XI S uma proposta bastante generosa em termos de duração. Naturalmente, o ritmo não se mantém o mesmo em toda a experiência, e existem secções onde o enredo se prolonga mais do que seria necessário, mas o conjunto continua suficientemente forte para justificar o investimento.
CONCLUSÃO
CONCLUSÃOPontos positivos
- Enredo envolvente e com bons momentos emocionais
- Combate muito competente
- Modo 2D dá-lhe uma forma diferente de jogar
- Enorme quantidade de conteúdo
- Melhorias de imagem e desempenho na Switch 2
Pontos negativos
- Poucas novidades relativamente à edição anterior
- Impossibilidade de transferir os dados de gravação da Nintendo Switch
- Algumas secções prolongam-se mais do que o necessário
- Algumas missões secundárias pouco ambiciosas

Calorias, nutrientes e Nintendo. Três palavras que definem o maior fã de F-Zero cá do sítio. Adepto de hábitos alimentares saudáveis, quando não anda atrás de uma balança, costuma estar ocupado com as notícias mais prementes e as análises mais exigentes.

