Aggelos 2 – Análise
Aggelos chegou à Nintendo Switch em 2019 e destacou-se entre a enorme quantidade de jogos de inspiração retro na consola. A influência de séries como Wonder Boy e de jogos como Zelda II: The Adventure of Link era evidente, mas a simplicidade da apresentação escondia uma aventura competente com uma exploração bem construída e um sistema de combate capaz de manter o interesse até ao final. Sete anos depois, o estúdio WONDERBOY BOBI regressa ao reino de Lumen com uma sequela mais ambiciosa. Aggelos 2 mantém a estrutura de ação e plataformas em duas dimensões, mas abandona a apresentação inspirada nos 8-bit em favor de uma realização visual mais próxima da era dos 16-bit. A mudança não serve apenas para tornar o jogo mais apelativo. Os cenários são maiores, as animações têm mais pormenor, e a exploração passa a decorrer entre dois reinos paralelos que se sobrepõem.

O enredo coloca-nos novamente no papel de um Aggelos, a ordem mais alta entre os anjos. O reino de Lumen encontra-se cercado pelo Exército das Trevas e os deuses estão à beira da derrota, levando Balro a enviar o protagonista numa missão para reestabelecer o equilíbrio. Para sobreviver, o nosso herói terá de aceitar uma forma demoníaca e aprender a utilizar tanto os poderes da luz como das trevas. Apesar deste enquadramento, Aggelos 2 não perde muito tempo antes de entregar o controlo ao jogador. Logo no início, o protagonista perde o seu equipamento e capacidades. Convenção comum num “Metroidvania”, mas utilizada de forma inteligente. As habilidades e os objetos são recuperados gradualmente, permitindo aprender cada mecânica sem sobrecarregar os primeiros momentos da aventura e ao mesmo tempo, abrindo novos caminhos nas áreas anteriormente visitadas.

Esta progressão é um dos elementos mais bem conseguidos. Demoramos pouco tempo a encontrar uma nova peça de equipamento, uma capacidade ou um local por explorar, o que mantém uma sensação constante de avanço. Mesmo quando temos de regressar a uma zona conhecida, há uma passagem antes inacessível ou um segredo que agora pode ser alcançado. O jogo percebe que a exploração tem de recompensar regularmente a curiosidade do jogador e evita períodos longos sem apresentar algo novo. A principal novidade está na relação entre as formas de anjo e demónio. A primeira privilegia uma abordagem mais controlada e defensiva, enquanto a segunda é mais rápida, ofensiva e adequada a ataques sucessivos. A transformação altera assim a forma como enfrentamos os inimigos, mas também influencia a exploração e a resolução de desafios. Algumas barreiras, mecanismos e projéteis exigem o uso da forma correta, e a alternância entre ambas é parte fundamental da jogabilidade e não apenas uma escolha estética. A dualidade estende-se ao mundo do jogo. Aggelos 2 apresenta dois mapas sobrepostos, correspondentes aos reinos da Luz e das Trevas, entre os quais podemos viajar através de portais. Os locais partilham parte da estrutura, mas apresentam inimigos, obstáculos e caminhos diferentes. É uma ideia que aumenta a dimensão da aventura sem se limitar a duplicar os mesmos cenários, obrigando-nos a perceber de que forma uma alteração num reino pode abrir uma possibilidade no outro.

O sistema de combate continua acessível. Os ataques respondem bem e os movimentos são precisos. À medida que avançamos, encontramos esferas que desbloqueiam ataques especiais e melhoram a resistência, o que ajuda a personalizar a experiência sem a transformar num RPG excessivamente complexo. A dificuldade encontra-se num ponto competente. Os inimigos comuns obrigam a respeitar os seus padrões, mas raramente interrompem o ritmo da exploração, enquanto os confrontos mais importantes exigem atenção e capacidade de adaptação. Aggelos 2 inclui treze “bosses” e os primeiros combates testam as mecânicas que aprendemos sem aumentos artificiais de dificuldade. O jogo pode ser exigente, mas não confunde desafio com frustração. Encontra-se o mesmo cuidado nas secções de plataformas. A deslocação é fluida e as novas capacidades, onde se incluem movimentos rápidos, escalada de paredes e formas adicionais de deslocação, alargam gradualmente as possibilidades de exploração. Os controlos precisos são importantes nas zonas com armadilhas e sequências mais rápidas, e a versão para a Nintendo Switch responde de forma consistente. Não se encontram problemas graves de estabilidade, quebras que afetem a jogabilidade ou reduções significativas de desempenho.
Visualmente, a passagem para um estilo 16-bit é uma evolução visível. A direção artística à base de “pixel art” mantém a identidade do original, mas permite personagens mais expressivas, inimigos maiores e ambientes com muito mais pormenor. Os dois reinos utilizam cores e elementos distintos para reforçar o contraste entre luz e trevas, facilitando também a leitura dos obstáculos e mecanismos. A apresentação funciona bem tanto num ecrã de televisão como no ecrã da consola, e os elementos mantêm-se suficientemente claros durante os momentos de maior movimento. A banda sonora acompanha o ambiente e adapta-se muito bem à exploração e aos confrontos, embora sem o mesmo destaque que o ambiente visual. O jogo inclui ainda tradução para português do Brasil, o que facilita a compreensão dos objetivos, descrições e indicações. O enredo demora mais tempo a ganhar importância. O conflito entre os deuses da Luz e o Exército das Trevas cria um enquadramento adequado para a dualidade das mecânicas, mas nos primeiros momentos há muito mais ênfase na apresentação de capacidades, inimigos e novos caminhos do que na componente narrativa. Não prejudica o ritmo, visto que a jogabilidade sustenta a experiência, mas o enredo não demonstra a mesma evolução que encontramos na estrutura e na apresentação.
CONCLUSÃO
CONCLUSÃOPontos positivos
- Jogabilidade precisa e bem implementada
- Progressão rápida, com novidades frequentes
- Alternância interessante entre as formas de anjo e demónio
- Direção artística à base de 16-bit muito competente
Pontos negativos
- Enredo demora a ganhar relevância
- Algumas regressões inevitáveis a zonas já exploradas

Após passar grande parte da sua infância em Hyrule e no Mushroom Kingdom dedica-se agora a explorar o vasto universo digital que o rodeia. Embora seja entusiasta de novos títulos é possível encontrá-lo frequentemente a revisitar os clássicos.

