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Mullet MadJack – Análise

Mullet MadJack não perde tempo a explicar o que pretende ser. Logo nos primeiros instantes somos atirados para um jogo de ação frenética, excessivo na apresentação e construído para obrigar o jogador a avançar sem hesitações. Desenvolvido pela brasileira Hammer95 Studios, Mullet MadJack combina a velocidade dos clássicos jogos de ação na primeira pessoa com elementos de “roguelite”, e envolve tudo numa direção artística inspirada em séries de “anime” das décadas de 1980 e 1990.

O resultado é uma experiência com uma identidade muito própria. As cores saturadas, os efeitos de imagem, as animações e a banda sonora trabalham em conjunto para criar um espetáculo caótico que raramente tira um instante para respirar. Apesar de as suas inspirações serem evidentes, Mullet MadJack constrói algo suficientemente distinto para não parecer apenas mais uma homenagem nostálgica. O enredo decorre num futuro onde a humanidade e a Internet se tornaram indissociáveis. As pessoas precisam de receber uma dose constante de dopamina a cada dez segundos e os robôs multimilionários controlam grande parte da sociedade. No centro de tudo está Jack Banhammer, um “Moderador” contratado para subir a um arranha-céus e resgatar uma influenciadora mantida em cativeiro. A premissa é deliberadamente absurda e revela uma crítica bastante clara à dependência das redes sociais, à procura constante de validação e à transformação do entretenimento numa necessidade quase biológica. Mullet MadJack nunca pretende desenvolver estas ideias com subtileza. Tudo é apresentado através de exageros, violência estilizada e personagens construídas como caricaturas, mas há inteligência suficiente na forma como o enredo acompanha a jogabilidade. A história é contada através de sequências animadas que reforçam a inspiração em séries de “anime” clássicas e ajudam a separar os capítulos. Embora não seja especialmente longa ou complexa, cumpre bem a sua função e consegue manter o interesse até ao final. A tradução inclui dobragem em português do Brasil, realizada por vozes reconhecidas naquele mercado, que reforça a identidade do projeto e o cuidado colocado na apresentação.

É na jogabilidade que Mullet MadJack encontra o seu principal elemento diferenciador. A vida de Jack é representada por um cronómetro que começa nos dez segundos. Eliminar inimigos acrescenta-lhe tempo, enquanto ficar parado ou falhar demasiados ataques conduz rapidamente à morte. A saúde e o tempo tornam-se assim uma única mecânica, obrigando o jogador a manter uma progressão constante. A ideia parece simples, mas altera profundamente a forma como abordamos cada divisão. Não há margem para explorar o cenário com calma, procurar todos os objetos ou estudar a posição dos adversários. Temos de entrar, identificar rapidamente os perigos, escolher um alvo e continuar a avançar. Cada inimigo eliminado permite ganhar mais alguns segundos, enquanto as execuções especiais e a utilização de elementos dos cenários oferecem recompensas superiores.

Jack pode transportar diferentes armas de fogo, desde pistolas e caçadeiras até espingardas automáticas e armas de energia. A isto junta-se um pontapé particularmente útil e capaz de lançar inimigos contra ventoinhas, portas, explosivos e outros perigos presentes nos cenários. Existem ainda armas brancas e objetos que permitem executar finalizações extremamente violentas, apresentadas através de pequenas animações. Os controlos respondem bem e o movimento transmite uma sensação constante de velocidade. A pontaria não exige a precisão encontrada noutros jogos do género, o que beneficia bastante a adaptação às características dos Joy-Con. Os controlos por movimento são uma alternativa interessante, embora seja necessário algum tempo de adaptação para acompanhar o ritmo elevado da ação.

Cada piso demora geralmente menos de um minuto a atravessar e termina com a escolha de uma melhoria para Jack. Existem mais de cinquenta opções capazes de alterar o funcionamento das armas, aumentar o tempo recebido por cada eliminação, melhorar as execuções ou facilitar diferentes estilos de jogo. É uma camada de progressão simples mas suficientemente variada para tornar cada tentativa ligeiramente diferente. Os elementos de “roguelite” encontram-se presentes, mas não dominam a experiência. Ao morrer, regressamos ao início do conjunto de pisos onde nos encontramos e perdemos as melhorias adquiridas durante essa tentativa. Como cada percurso é relativamente curto, a repetição raramente se torna demasiado penalizadora. Pelo contrário, é um incentivo a memorizar os espaços, experimentar outras combinações e procurar trajetos mais eficientes.

Os cenários são construídos a partir de divisões criadas previamente mas organizadas de forma variável. Esta solução dá alguma imprevisibilidade à experiência, sem comprometer completamente o desenho dos níveis. Ainda assim, após várias tentativas começamos a reconhecer os mesmos corredores e obstáculos, e a repetição torna-se mais evidente durante as fases iniciais. Cada capítulo introduz novos inimigos, perigos e pequenas variações na jogabilidade. Os confrontos com os “bosses” alteram o ritmo habitual e substituem a pressão constante do cronómetro por combates mais tradicionais, onde é necessário identificar padrões e aproveitar corretamente as melhorias escolhidas. Nem todos são igualmente memoráveis mas ajudam a impedir que a campanha se transforme numa sucessão contínua de corredores. Apesar de poder ser terminada em poucas horas, a campanha funciona sobretudo como uma introdução aos diferentes sistemas. O modo Endless traz níveis aleatórios e permite continuar a jogar enquanto conseguirmos sobreviver, sendo aqui que a procura por melhores tempos e pontuações ganha maior importância. Existe também um modo clássico sem cronómetro, pensado para quem pretende apreciar o combate e a apresentação sem a pressão constante dos dez segundos.

Visualmente, Mullet MadJack é um dos jogos “indie” mais distintos dos últimos anos. A inspiração nas séries de “anime” clássicas não se limita às sequências animadas. Está presente nas personagens, nos menus, nos efeitos, nos cenários e até na forma exagerada como cada inimigo é destruído. A banda sonora inspirada em música “synthwave” acompanha perfeitamente o ritmo e contribui bastante para a sensação de estarmos dentro de uma produção perdida de outra época. Esta intensidade visual tem também um lado menos positivo. A quantidade de efeitos, movimentos e cores pode dificultar a leitura da ação, sobretudo no ecrã da consola. Mesmo com algumas opções destinadas a reduzir o impacto dos efeitos, continua a ser uma experiência potencialmente desconfortável para jogadores sensíveis a luzes intermitentes ou a movimentos rápidos. A conversão para Nintendo Switch preserva bem a identidade visual e a velocidade da experiência. Encontram-se pequenas pausas e quebras de fluidez durante a transição entre alguns pisos, mas não têm um impacto significativo durante os momentos de ação.

CONCLUSÃO

CONCLUSÃO
8 10 0 1
Mullet MadJack é uma combinação extremamente competente entre ação na primeira pessoa, progressão de um “roguelite” e estética de série de "anime" clássica. A campanha curta e uma certa repetição dos cenários impedem que a experiência alcance outro nível, mas a direção artística vistosa, a qualidade do combate e os modos adicionais garantem uma longevidade saudável, globalmente competente e muito adequada a sessões curtas.
Mullet MadJack é uma combinação extremamente competente entre ação na primeira pessoa, progressão de um “roguelite” e estética de série de "anime" clássica. A campanha curta e uma certa repetição dos cenários impedem que a experiência alcance outro nível, mas a direção artística vistosa, a qualidade do combate e os modos adicionais garantem uma longevidade saudável, globalmente competente e muito adequada a sessões curtas.
8/10
Total Score

Pontos positivos

  • Direção artística distinta e extremamente competente
  • Jogabilidade rápida, intuitiva e viciante
  • Mecânica dos dez segundos muito bem integrada
  • Boa variedade de armas, melhorias e modalidades
  • Banda sonora e dobragem de grande qualidade

Pontos negativos

  • Campanha principal relativamente curta
  • Algumas divisões tornam-se repetitivas
  • Intensidade visual pode dificultar a leitura da ação
  • Pequenas pausas entre pisos na Nintendo Switch

Sérgio Mota

Após passar grande parte da sua infância em Hyrule e no Mushroom Kingdom dedica-se agora a explorar o vasto universo digital que o rodeia. Embora seja entusiasta de novos títulos é possível encontrá-lo frequentemente a revisitar os clássicos.

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