Star Fox – análise
Depois de um anúncio inesperado no início do mês maio, Star Fox desembarca na Nintendo Switch 2 sob a forma de um “remake” do muito adorado jogo de Nintendo 64 que na Europa ficou conhecido como Lylat Wars, mas que no Japão e América do Norte se chamou Star Fox 64. Se o anúncio surpreendeu foi também por se tratar de um “remake”, e não de uma nova obra da série Star Fox. Quando a personagem de Fox McCloud apareceu em The Super Mario Galaxy Movie não faltou especulação que um novo capítulo da série estaria a caminho, mas a Nintendo acabou por anunciar um “remake”, feito com a mestria da Velan Studios. E “remake” é mesmo a palavra correta, porque o que aqui temos é uma recriação praticamente exata do jogo de Nintendo 64, com as mesmas mecânicas de jogabilidade, o mesmo desenho de níveis, e o mesmo posicionamento e comportamento dos inimigos, com uma roupagem audiovisual inteiramente nova, uma história mais elaborada, e conteúdos adicionais. Esta opção permite aos novos jogadores descobrir um clássico com quase trinta anos dotado de uma estética atual, e aos fãs do jogo original voltar a pegar nele e reviver uma série de momentos que fazem parte da história da Nintendo.

O que mais sobressai na primeira impressão é o ambiente audiovisual completamente novo. O enredo é a mesmo mas narrado com mais pormenor, até temos direito a uma sequência cinemática que nos mostra a missão trágica da equipa Star Fox original. As mudanças não são significativas: o enredo continua mais próximo de uma BD de ação do que de um filme de ficção científica. A fórmula clássica do cientista malvado que se revoltou contra os seus antigos patrões e criou um exército para os destruir não é particularmente rica, mas é um pretexto aceitável para que as forças de defesa do planeta Corneria contratem os serviços do grupo de mercenários Star Fox liderados por Fox McCloud, filho de James McCloud, o malogrado líder da equipa original.

A estética visual, agora com um aspeto muito mais realista, destaca-se pela positiva, embora não esteja livre de críticas. As estruturas de cada nível exibem pormenores razoáveis, temos uma boa noção dos locais onde estamos, e os níveis no espaço assemelham-se mais a uma produção cinematográfica graças à riqueza dos cenários, além de efeitos de luz muito bonitos e que sobressaem nas explosões. Por outro lado, se no original as limitações da época nos enchiam o ecrã com cores vivas e contrastes muito pronunciados, neste “remake” alguns níveis vão um pouco longe demais com os ambientes escuros onde pode ser difícil distinguir inimigos. Isto nota-se nos níveis que decorrem no espaço e no planeta oceânico Aquas (embora este já fosse bastante escuro no jogo original).

No entanto, a opção de recriar os níveis originais passo por passo traz uma limitação que passa ao lado na primeira vez que percorremos o nível de Corneria, mas que se torna mais visível nos níveis passados no espaço. Se o desenho de níveis do original correspondia muito bem às expectativas dos jogadores em 1997, o que aqui temos é um jogo que utiliza meios do nosso tempo limitados pelo formato original. Por outras palavras: os cenários e inimigos exibem um aspeto moderno, mas os níveis não são mais ambiciosos, não alargam o horizonte e não permitem uma visão mais ampla capaz de puxar mais pelas capacidades da consola. É assim que em níveis como Sector X ficamos com a impressão que objetos de dimensões colossais surgem no ecrã vindos do nada, não se trata de um desvio face ao original mas sim de uma recriação demasiado fiel, sem ter em conta que já não estamos em 1997.

Ainda dentro da componente audiovisual, é preciso abordar o inevitável: as vocalizações. Lylat Wars/Star Fox 64 é provavelmente o jogo com as vocalizações mais conhecidas do catálogo da Nintendo. Não só elas continuam aqui como há muitas falas novas, e embora os diálogos originais não sejam todos reproduzidos fielmente (calma, “Do a barrel roll!” continua presente), o seu sentido não foi alterado e sofreram apenas modificações ligeiras. Por outro lado, notam-se diferenças óbvias na interpretação. Algumas personagens (inimigos, sobretudo) têm agora uma entrega menos marcante e menos dramática que no original. Mas o que mais sobressai é como as vocalizações do original tinham uma qualidade sonora quase radiofónica, como se as personagens estivessem a falar através de um sistema de comunicações num qualquer veículo. Aqui as vocalizações têm uma qualidade limpa e sem interferências. Isso é bom? “Stricto sensu”, claro. Mas para quem tem o original como referência, perde uma dimensão que ajudava a criar ambiente e que assentava muito bem na estética. Há mérito nesta nova qualidade das vocalizações, mas é impossível não notar que um pouco de interferência radiofónica ter-lhes-ia dado um toque muito apreciado. No que diz respeito à acessibilidade, é possível jogar com o texto e as vozes numa série de idiomas diferentes, incluindo português do Brasil (para jogadores portugueses a partir de uma certa idade, as vozes vão recordar antigas dobragens em cassetes VHS).

Mas depois de se falar tanto da forma, quando vamos falar do conteúdo? A jogabilidade está bem e recomenda-se. Os controlos continuam precisos e apurados, os comandos são simples e as mecânicas são exatamente as mesmas do original, incluindo o bónus por atingir vários inimigos ao mesmo tempo (essencial para conseguir uma medalha). A estrutura do jogo é a mesma: realizamos um percurso de Corneria até Venom com algumas etapas bifurcadas onde o cumprimento de um determinado objetivo nos permite seguir para outro nível, desta vez explicitado de forma mais clara. Não há movimentos novos, mas há uma opção nova para os controlos: é possível usar o segundo Joy-Con como um rato para visar e disparar, e isto é feito a pensar na experiência multijogador cooperativa a dois. Não funciona perfeitamente, já que exige um nível razoável de conhecimento do jogo que leva a momentos frustrantes, mas a ambientação é menos exigente no nível de dificuldade mais fácil. É também possível jogar com o comando da Nintendo 64, na sua versão sem fios para a Nintendo Switch.
Ao contrário do que acontece no original, onde a campanha principal, o modo treino e o multijogador são tudo o que temos, aqui encontram-se ainda os Desafios, onde vamos cumprir determinados objetivos em cada nível que já jogámos na campanha principal. São quase duzentos no total, e incluem objetivos relacionados com cada nível como destruir dez inimigos com uma bomba no Sector Y e vencer o “boss” do nível Solar sem ser atingido. São muito interessantes, embora as recompensas sejam todas a nível da cosmética: avatares, acessórios para exibir através do GameChat com uma câmara ligada, e fundos para o nosso perfil quando combatemos em batalhas online. Os desafios são muito mais interessantes que as recompensas, e valem por si só. O modo Batalha é também um dos grandes destaques deste Star Fox. É possível jogar a solo com aliados e adversários controlados pela consola, online onde os participantes são outros jogadores de Star Fox, e através do GameShare (local e online). Embora tenha apenas três cenários, é muito cativante e vai facilmente roubar bastante tempo ao jogador. No modo Batalha vemos também que é possível jogar em cenários com uma distância muito maior do que na campanha principal, e a primeira vez que o jogamos quase parece uma experiência diferente, embora se jogue da mesma forma. É também possível partilhar o jogo com consolas Switch, trazendo assim uma parte da experiência a quem não tem a Switch 2. O GameShare também está disponível para os outros modos de jogo, mas exige sempre que o anfitrião adicione os outros jogadores aos seus amigos.
CONCLUSÃO
CONCLUSÃOPontos positivos
- "Remake" muito competente sob quase todos os pontos de vista
- Aspeto visual renovado e composições orquestrais
- Desafios e componentes multijogador muito cativantes
- Mecânicas de jogabilidade muito bem recriadas
Pontos negativos
- Vocalizações menos marcantes que no original
- Níveis pequenos (e curtos) para o nosso tempo
- Preço elevado para uma campanha principal curta

Apreciador de jogos de outras épocas, não diz que não a uma boa obra dos nossos tempos. Diz-se que é por ele que passam os textos antes da publicação, o que significa que é uma espécie de boss final da escrita para os outros membros da equipa.

