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Resident Evil 7: Biohazard Gold Edition – Análise

Lançado originalmente em janeiro de 2017, Resident Evil 7: Biohazard foi o jogo que salvou a série de uma deriva de ação excessiva que culminou no pouco amado Resident Evil 6. Quase uma década depois, o sétimo capítulo chega finalmente à Nintendo Switch 2 numa conversão própria, ao contrário do que sucedeu na Nintendo Switch, onde Resident Evil 7 foi disponibilizado em “streaming” e sofria de problemas de qualidade de imagem, latência e cortes. Esta conversão é uma proposta completamente diferente, e a Capcom teve o cuidado de o trazer sob a forma da Gold Edition, que inclui todo o conteúdo adicional já disponibilizado. O lançamento coincide com a chegada do aguardado Resident Evil Requiem à Nintendo Switch 2, marcando a primeira vez que uma entrada principal da série é lançada em simultâneo com as outras plataformas numa consola Nintendo. A Capcom aproveitou a ocasião para trazer também Village, criando um pacote completo para quem quiser revisitar ou descobrir pela primeira vez a era moderna da série numa consola com capacidades portáteis.

Resident Evil 7 coloca-nos na pele de Ethan Winters, um homem comum sem qualquer treino de combate que recebe um vídeo da sua mulher Mia, desaparecida há três anos, a pedir-lhe que vá buscá-la a uma propriedade isolada nos pântanos de Dulvey, no estado norte-americano de Louisiana. O que começa como uma história de desaparecimento transforma-se num pesadelo claustrofóbico quando Ethan acaba preso na Herdade Baker, uma quinta em ruínas habitada por uma família que parece já não pertencer ao mundo dos vivos. A família Baker é o coração emocional e tonal do jogo. Jack, o patriarca de força descomunal e temperamento explosivo, persegue Ethan pela casa com uma energia que lembra o melhor de Mr. X e Nemesis, mas com uma personalidade própria que alterna entre o perturbador e o grotescamente cómico, como quando irrompe numa garagem a conduzir um carro em círculos apertados ou quando regenera os próprios miolos sem piscar um olho. Marguerite, a matriarca, reina na ala da fazenda com um fascínio doentio por insetos e uma culinária que é, literalmente, nauseante. Lucas, o filho, prefere a crueldade calculada: armadilhas elaboradas, salas de fuga macabras e um sadismo que faz dele o vilão mais intelectualmente perturbador dos três. Por baixo desta família disfuncional esconde-se Eveline, uma criança que também é uma arma bio-orgânica criada pela empresa obscura E-Series, com a capacidade de controlar mentes e propagar uma infestação fúngica chamada Molded. A história desdobra-se em camadas e serve-se inteligentemente de cassetes de vídeo que o jogador pode reproduzir para reviver os acontecimentos anteriores à sua chegada. É um dispositivo narrativo simples mas muito eficaz, que transforma a exploração em descoberta arqueológica e contextualiza cada canto da propriedade sem interromper o ritmo da ação.

A transição para uma perspetiva na primeira pessoa foi a decisão mais corajosa e mais acertada da Capcom nesta geração da série. Em vez de afastar o jogador da ação como se poderia temer, a câmara na primeira pessoa intensifica cada encontro, cada som nas paredes, cada sombra que se move ao fundo do corredor. Ethan não é um soldado, não faz acrobacias, não tem postura de herói, e isso reflete-se nos controlos deliberadamente pesados que dão ao movimento um peso de mortalidade constante. A gestão do inventário e recursos é a clássica da série, as munições são escassas, a capacidade é limitada, e cada decisão sobre o que se vai guardar ou largar tem consequências reais. De volta estão as ervas medicinais, os baús de armazenamento, as salas de gravação e ao contrário do que acontece em muitos jogos modernos, não existe marcação automática de objetivos nem mapa cheio de elementos. O jogador é obrigado a memorizar a planta da casa, a descobrir passagens secretas, e a ler notas dispersas que dão pistas sobre as combinações de cadeados.

A primeira metade do jogo, centrada na mansão, é onde RE7 atinge o seu zénite. A presença constante de Jack Baker, que pode irromper em qualquer divisão e que é praticamente impossível de matar até que o jogo o permita, cria uma tensão permanente que obriga a planear cada movimento. O inventário fica aberto durante a perseguição, o que transforma a simples consulta do mapa num momento de adrenalina. À medida que o jogo avança para os capítulos da plantação e do barco, a qualidade começa a oscilar. Estes segmentos são mais lineares, perdem a abertura orgânica da mansão, e o impacto emocional diminui ligeiramente. Ainda assim, o desenho de RE7 mantém-se consistentemente acima da média. Na Nintendo Switch 2, a novidade mais relevante ao nível dos controlos é a utilização do giroscópico. Com os Joy-Con 2 é possível apontar inclinando fisicamente o comando, o que confere uma precisão adicional interessante para quem está habituado a esta mecânica de “shooters” portáteis japoneses. Funciona, mas não está tão apurado como em jogos desenhados especificamente para esta funcionalidade, a calibração pode ser instável e nem todos os jogadores se vão sentir confortáveis. Não existem controlos por toque no ecrã em modo portátil, o que seria uma adição natural mas que a Capcom optou por não implementar.

Em termos de resolução, RE7 corre a aproximadamente 720p num ecrã de televisão com um aumento para 1080p. No ecrã da consola a resolução interna desce para cerca de 432p antes do aumento, o que é um número modesto no papel mas que resulta numa imagem surpreendentemente nítida e aceitável. Em comparação direta, o jogo não foge muito do nível visual da versão PS4, com algumas melhorias pontuais como a renderização de sombras menos agressiva em certas zonas e iluminação volumétrica densa que cria uma névoa espessa nos espaços exteriores. Mantém os 60 fotogramas por segundo de forma estável ao longo de praticamente todo o jogo, incluindo nas secções de ação mais intensas. As únicas quedas vincadas acontecem no pátio exterior que liga as várias alas durante o segundo ato do jogo, um espaço mais aberto que parece pedir mais ao “hardware”. São momentos pontuais e não comprometem a experiência. RE7 é um jogo que deve ser jogado com auscultadores e as luzes apagadas. Na Nintendo Switch 2 essa forma de jogar torna-se surpreendentemente imersiva enquanto experiência portátil. A banda sonora evita as grandes orquestrações e centra-se antes no ruído ambiente, gemidos nas paredes, passos a dois quartos de distância e o som inconfundível de Jack Baker a arrombar uma porta que se julgava segura. A dobragem em inglês continua competente, com a família Baker a destacar-se pela natureza exagerada mas nunca demasiado caricata das suas interpretações. O jogo está disponível com legendas em português do Brasil.

Esta Gold Edition inclui todos os conteúdos adicionais lançados em 2017. O pacote Banned Footage divide-se em dois volumes com três experiências cada: “Bedroom” repõe a perspetiva de clausura extrema num quarto com Marguerite e é talvez o segmento mais perturbador em termos de ambiente; “Nightmare” é um modo de sobrevivência por vagas em contracorrente com o resto do jogo e com uma mecânica de fabrico sob pressão; e “Ethan Must Die” é um “roguelike” punitivo desenhado para quem quer desafio extremo. O DLC Not a Hero coloca o jogador na pele de Chris Redfield, que chega à propriedade Baker para caçar Lucas numa série de minas subterrâneas cheias de armadilhas. Ao contrário do protagonista Ethan, Chris tem treino militar, tornando este capítulo muito mais orientado para a ação. O destaque absoluto vai para End of Zoe, que alarga o desfecho da história principal ao colocar o jogador no papel de Joe Baker, tio de Zoe e único membro da família Baker que não foi infetado por Eveline. Joe não usa armas de fogo, bastam-lhe os seus punhos, e os gatilhos esquerdo e direito correspondem a cada mão, além de explosivos artesanais e lanças improvisadas. Destruir os Moldeds num pântano tem um absurdo delicioso que contrasta perfeitamente com o horror mais cerebral da campanha principal, e a história oferece um fecho emocional genuíno para a família Baker enquanto abre caminho para os eventos de Village.

CONCLUSÃO

CONCLUSÃO
8 10 0 1
Resident Evil 7 na Nintendo Switch 2 é a versão portátil que o jogo merecia e que a Nintendo nunca tinha conseguido oferecer. É uma conversão honesta, bem otimizada e completa, que prova que a consola da Nintendo está à altura dos desafios técnicos da geração anterior. A conversão é muito competente, o jogo continua a envelhecer bem e a experiência mantém uma força impressionante, sobretudo na primeira metade. Nem tudo funciona com o mesmo brilho até ao fim, e esta não é a versão mais avançada em termos técnicos, mas continua a ser uma das melhores maneiras de jogar um dos Resident Evil mais importantes dos últimos anos.
Resident Evil 7 na Nintendo Switch 2 é a versão portátil que o jogo merecia e que a Nintendo nunca tinha conseguido oferecer. É uma conversão honesta, bem otimizada e completa, que prova que a consola da Nintendo está à altura dos desafios técnicos da geração anterior. A conversão é muito competente, o jogo continua a envelhecer bem e a experiência mantém uma força impressionante, sobretudo na primeira metade. Nem tudo funciona com o mesmo brilho até ao fim, e esta não é a versão mais avançada em termos técnicos, mas continua a ser uma das melhores maneiras de jogar um dos Resident Evil mais importantes dos últimos anos.
8/10
Total Score

Pontos positivos

  • Ambiente continua extraordinariamente forte
  • Primeira metade ainda é uma das melhores da série
  • Adaptação muito competente na Nintendo Switch 2

Pontos negativos

  • Segundo e terceiro atos mais lineares e menos inspirados que o inicial
  • Menos apelativo para quem prefere Resident Evil na terceira pessoa

Nuno Nêveda

Calorias, nutrientes e Nintendo. Três palavras que definem o maior fã de F-Zero cá do sítio. Adepto de hábitos alimentares saudáveis, quando não anda atrás de uma balança, costuma estar ocupado com as notícias mais prementes e as análises mais exigentes.

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