AnálisesSwitch 2

Human Fall Flat – Nintendo Switch 2 Edition – Análise

Quando pensamos em nomes de videojogos, não são muitos os títulos que usam formas verbais. Human Fall Flat começa logo por se destacar nesse aspeto. Não há aqui o nome de uma personagem (o protagonista é completamente oco no que diz respeito à personalidade) nem um adjetivo muito inspirador, apenas ‘humano espalha-se ao comprido’. Ou será que Fall aqui é apenas ‘queda’ e não uma forma do verbo ‘cair’? Seja como for, parece que não lhe faz mal nenhum, este jogo de plataformas do estúdio “indie” lituano No Brakes Games saiu originalmente em 2016 (com uma versão Nintendo Switch no ano seguinte) e tornou-se um dos jogos mais vendidos de todos os tempos, com um invejável volume de vendas superior a cinquenta e cinco milhões de cópias e “downloads”, o que o coloca a par do Super Mario Bros. original em número de vendas. Nada mal para um jogo com um protagonista sem qualquer traço de carisma e que se move de forma muito bizarra.

Passados quase dez anos desde o lançamento original, Human Fall Flat tem direito a uma versão para a Nintendo Switch 2. Mas de que se trata ao certo? Como já foi dito, um jogo de plataformas, mas não segue a linha da velocidade, saltos acrobáticos e ação intensa que tanto associamos a estes jogos. É antes um jogo onde se depende bastante da física dos movimentos (como se nos outros fosse irrelevante, mas já lá vamos) e onde o jogador passa uma grande parte do tempo com a impressão de que a sua personagem se move como um molusco andante obrigado a realizar movimentos mais precisos para avançar e resolver “puzzles”. Cada nível encontra-se a flutuar no ar e ao iniciar um nível novo o nosso protagonista, que tanto pode ser uma figura branca sem nenhuma característica visível como usar uma fatiota personalizada entre as muitas opções disponíveis, espalha-se ao comprido sem qualquer cerimónia no ponto de partida. Embora baseados no nosso mundo, onde se incluem locais como um castelo, uma doca, uma floresta ou uma fábrica, os níveis têm todos um ar surreal, como se estivessem dispostos de uma forma que não deviam ou tivessem saído de um sonho onde nem tudo tem que fazer sentido. O ambiente audiovisual exibe muitas linhas retas e texturas do mais simples que há, mas isso não faz mal e foi uma opção muito bem escolhida por parte da produção, já que dificilmente se imagina Human Fall Flat com um ambiente visual diferente.

Mas como funciona o jogo no que mais importa? A nossa personagem move-se de forma estranha e vai ter de saltar, agarrar-se, mover objetos, ativar mecanismos, o tipo de coisas que se espera de um jogo de plataformas onde o objetivo é resolver “puzzles” para avançar, e de forma livre, o que significa que cada nível pode ter várias abordagens possíveis. Os controlos requerem um pouco de habituação e de prática, sobretudo no que diz respeito a movimentos mais precisos como trepar e colocar objetos no sítio certo para que os nossos saltos corram bem. Human Fall Flat foi feito de forma a criar movimentos cómicos, e nisso não falha, mas a fronteira entre humor e frustração é muito ténue e é possível termos de voltar atrás devido a um passo em falso ou a um erro ao agarrarmo-nos a uma saliência depois de estarmos quase na saída de um nível. Felizmente o jogo não é cruel, e coloca-nos de volta num ponto próximo. Com os movimentos escorregadios da nossa personagem e os saltos pouco precisos e cómicos, podemos afirmar sem sombra de dúvida que Human Fall Flat passa depressa de ser uma experiência divertida para ser uma experiência frustrante, e logo a seguir volta a ser divertida. Porque se é verdade que as mecânicas testam a nossa paciência, o desenho dos níveis foi bem pensado para que não se torne demasiado pesado nem exija demasiado tempo. Mesmo com muita tentativa e erro, é possível terminar o jogo com os níveis adicionais em aproximadamente sete a oito horas. É viciante, sim, e as doses são suficientemente curtas para manter o interesse, mesmo quando se torna frustrante. Tem igualmente a capacidade de provocar nervosismo, mas nunca de nos fazer abandonar a experiência sem curiosidade para ver um pouco mais.

Esta versão Switch 2 traz uma série de características próprias. A possibilidade de utilizar o Joy-Con como um rato entra mais na categoria de curiosidade do que utilidade, isto porque se os controlos convencionais já são suficientemente invulgares, a experiência de jogar Human Fall Flat com um Joy-Con a fazer de rato é… pouco recomendável além dos trinta segundos, e muito pouco intuitiva, o que sugere que talvez esta característica não tenha sido implementada com uma intenção de servir de alternativa real. Por outro lado, a função GameShare que permite jogar com alguém sem o jogo, essa sim, é útil, tal como o GameChat para comunicar com outros jogadores. Sim, porque Human Fall Flat tem funcionalidades multijogador, local (para dois jogadores) e online (até oito jogadores), onde nos podemos juntar a um dos níveis ou sermos anfitriões e tentar resolver o nível com outros jogadores, ainda que não raras vezes o resultado seja mais desastrado do que útil – e olhando para a forma como o jogo se desenrola, talvez seja essa a intenção.

Uma última nota para o desempenho. Human Fall Flat na Switch 2 não é uma potência gráfica, e o aspeto visual simples e minimalista – que se encontra também no ambiente sonoro, com composições à base de piano que não se sobrepõem à ação – não sofre alterações significativas nesta versão, mas é muito mais fluido e exibe uma resolução mais elevada. Quem já tiver o jogo para a Switch original pode fazer o “upgrade” para Switch 2 a um preço baixo.

CONCLUSÃO

CONCLUSÃO
8 10 0 1
Human Fall Flat é uma experiência divertida e frustrante, cómica e surreal, viciante e enervante, e nada disto é contraditório. O seu desenho de níveis bastante equilibrado garante que o jogo é capaz de agarrar o jogador durante o tempo necessário sem se tornar saturante, enquanto os controlos conseguem dar a impressão de que o jogador tem um boneco desarticulado nas mãos. E tudo isto funciona, seja a nível local seja em multijogador online. Em "upgrade" para quem o tem na Switch original ou na sua versão integral para quem esteja a pegar nele pela primeira vez, Human Fall Flat - Nintendo Switch 2 Edition vai deixar muitos jogadores cativados... e talvez um pouco irritados, mas também divertidos. O objetivo é mesmo esse.
Human Fall Flat é uma experiência divertida e frustrante, cómica e surreal, viciante e enervante, e nada disto é contraditório. O seu desenho de níveis bastante equilibrado garante que o jogo é capaz de agarrar o jogador durante o tempo necessário sem se tornar saturante, enquanto os controlos conseguem dar a impressão de que o jogador tem um boneco desarticulado nas mãos. E tudo isto funciona, seja a nível local seja em multijogador online. Em "upgrade" para quem o tem na Switch original ou na sua versão integral para quem esteja a pegar nele pela primeira vez, Human Fall Flat - Nintendo Switch 2 Edition vai deixar muitos jogadores cativados... e talvez um pouco irritados, mas também divertidos. O objetivo é mesmo esse.
8/10
Total Score

Pontos positivos

  • Ambiente audiovisual minimalista perfeito
  • Desenho de níveis criativo e bem pensado
  • Bom desempenho gráfico
  • Equilíbrio entre divertimento e frustração cómica

Pontos negativos

  • Alguns momentos mais frustrantes do que outros
  • Controlos de rato sem grande utilidade

João Dias

Apreciador de jogos de outras épocas, não diz que não a uma boa obra dos nossos tempos. Diz-se que é por ele que passam os textos antes da publicação, o que significa que é uma espécie de boss final da escrita para os outros membros da equipa.

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