AnálisesSwitch 2

Shadow Of The Tomb Raider: Definitive Edition – Análise

A reinvenção da série Tomb Raider iniciada em 2013 procurou apresentar uma Lara Croft mais humana, vulnerável e muito diferente da aventureira invencível que tinha marcado os primeiros jogos. Rise of the Tomb Raider desenvolveu essa transformação, apostando numa aventura mais ambiciosa, com maior liberdade de exploração e apresentou uma Lara progressivamente mais confiante. Em 2018, Shadow of the Tomb Raider encerrou esta trilogia com uma abordagem ligeiramente diferente, colocando maior importância nas ruínas, nos “puzzles” e na exploração de ambientes perigosos. O desenvolvimento passou a ser liderado pela Eidos Montréal, que recuperou alguns elementos mais próximos da identidade clássica da série. Oito anos depois, a Aspyr traz finalmente este último capítulo à Nintendo Switch 2, numa edição que inclui todos os conteúdos adicionais e permite completar a trilogia na consola da Nintendo.

A história começa pouco depois dos acontecimentos de Rise of the Tomb Raider, com Lara e Jonah a seguirem uma nova pista sobre a Trinity, a organização responsável por grande parte dos conflitos que marcaram a trilogia. A investigação leva-os ao México, onde Lara acaba por retirar um artefacto de um templo, desencadeando uma sucessão de acontecimentos que colocam em perigo várias regiões da América Latina. O que começa como mais uma tentativa de impedir os planos da Trinity transforma-se numa corrida para evitar uma catástrofe de grandes dimensões, levando a protagonista ao Peru e à cidade escondida de Paititi. O enredo procura explorar o peso das decisões de Lara e a forma como a sua obsessão pela organização inimiga a leva a agir sem pensar nas consequências, uma abordagem interessante para concluir a evolução da personagem, embora nem sempre executada da melhor maneira.

O problema está sobretudo na forma como o argumento desenvolve essa transformação. Lara é apresentada como alguém cada vez mais determinada e capaz de ultrapassar praticamente qualquer obstáculo, mas algumas das suas decisões são difíceis de compreender, sobretudo quando insiste em seguir os próprios objetivos depois de causar consequências graves para outras pessoas. Jonah funciona frequentemente como a voz da razão, tentando recordar-lhe que existem problemas mais importantes do que a sua perseguição à Trinity, mas o enredo acaba por regressar várias vezes aos mesmos conflitos. Existem bons momentos e algumas sequências bastante intensas, mas falta a consistência emocional encontrada nos dois capítulos anteriores. O encerramento da trilogia também podia ter sido mais marcante, sobretudo tendo em conta o percurso de Lara desde a primeira aventura.

Felizmente a jogabilidade continua a apresentar qualidades suficientes para compensar parte das fragilidades da história. Shadow of the Tomb Raider mantém a estrutura de ação e aventura dos jogos anteriores, combinando exploração, plataformas, combate e pequenos espaços abertos onde se encontram atividades secundárias e recursos. A principal diferença está no maior destaque dado às tumbas e aos “puzzles”, uma decisão que acaba por aproximar a experiência da identidade mais tradicional da série. Em vez de depender constantemente de grandes tiroteios, o jogo passa mais tempo a pedir ao jogador que observe os cenários, descubra passagens escondidas e encontre soluções para mecanismos antigos. É uma alteração bem-vinda e provavelmente onde este capítulo consegue superar os seus antecessores.

É nas tumbas que se encontram alguns dos melhores momentos do jogo. Se algumas têm mecanismos relativamente simples, outras exigem perceber como diferentes elementos do cenário funcionam em conjunto utilizando cordas, pesos, água ou plataformas móveis para chegar ao destino. Há uma satisfação genuína quando finalmente se encontra a solução para um “puzzle” que parecia complicado, sobretudo porque muitos destes desafios estão integrados de forma convincente no ambiente. As tumbas opcionais são particularmente interessantes e justificam explorar os caminhos secundários, oferecendo algumas das situações mais elaboradas de toda a campanha. Também se encontram criptas, pequenos segredos e objetos colecionáveis que dão motivos suficientes para sair do percurso principal sem transformar a experiência numa lista interminável de tarefas.

A movimentação de Lara mantém grande parte das capacidades introduzidas anteriormente, mas conta agora com algumas possibilidades que tornam a exploração vertical mais interessante. Escalar paredes, utilizar o machado para atravessar algumas superfícies, descer por cordas ou saltar entre estruturas continuam a funcionar bem e criam sequências espetaculares. Os ambientes naturais são particularmente importantes, com florestas densas, cavernas e zonas subaquáticas que obrigam a adaptar constantemente a forma como se avança. Algumas secções de exploração debaixo de água transmitem uma sensação de desconforto bastante convincente, especialmente quando Lara tem de atravessar espaços apertados com pouco tempo para respirar. O problema é que nem todas as animações apresentam a precisão desejada e ainda existem saltos ou movimentos onde a personagem parece agarrar-se automaticamente a superfícies que não estavam exatamente ao alcance.

No que toca ao combate, este também sofreu alterações importantes. Apesar de continuar a existir uma quantidade considerável de armas e melhorias, os confrontos diretos ocupam menos espaço do que nos capítulos anteriores, dando maior destaque à furtividade. Lara pode esconder-se entre a vegetação, utilizar lama para se camuflar e eliminar adversários sem revelar imediatamente a sua posição. Existem momentos interessantes em que é possível observar patrulhas e eliminar inimigos de forma quase metódica, aproveitando o próprio cenário para evitar confrontos desnecessários. Esta abordagem combina bem com o ambiente da selva e reforça a ideia de que Lara se tornou uma sobrevivente muito mais experiente, mas acaba por retirar alguma intensidade às sequências de ação. Quando o jogo obriga a enfrentar vários inimigos diretamente percebe-se que o sistema continua competente, mas já não apresenta grandes novidades. O arco, as pistolas e as outras armas respondem bem e existe alguma liberdade para escolher a abordagem, embora a inteligência artificial nem sempre consiga acompanhar as possibilidades da furtividade. Alguns adversários apresentam comportamentos previsíveis e é relativamente fácil eliminar grupos inteiros sem que estes reajam de forma convincente. Também se sente falta de mais confrontos memoráveis, sobretudo quando comparados com algumas das grandes sequências de Rise of the Tomb Raider.

Paititi é outro dos elementos que distingue este capítulo. A cidade escondida funciona como um dos principais espaços de exploração e apresenta uma quantidade considerável de personagens, comerciantes e pequenas histórias secundárias. O ambiente é interessante e permite conhecer melhor a cultura e os conflitos daquele universo, enquanto os cenários apresentam um trabalho visual bastante conseguido. No entanto, a dimensão da cidade acaba por prejudicar o ritmo em determinados momentos. Existem demasiadas deslocações, conversas pouco relevantes e missões secundárias que seguem estruturas bastante simples, afastando a aventura do que ela faz melhor. Esta edição inclui os conteúdos adicionais lançados anteriormente, nomeadamente sete tumbas de desafio, novas missões, equipamentos, habilidades e opções cosméticas. É um pacote bastante completo e as tumbas adicionais acabam por ser particularmente importantes porque reforçam a melhor componente da aventura. Algumas podem também ser exploradas em cooperação online, acrescentando uma possibilidade diferente para quem quiser ultrapassar os desafios acompanhado. A campanha principal pode ser concluída em cerca de 12 a 15 horas, mas explorar as atividades secundárias e completar grande parte das tumbas pode levar a experiência além das 25 horas. Para quem quiser descobrir todos os segredos, existe conteúdo suficiente para ultrapassar esse número.

Visualmente, Shadow of the Tomb Raider continua a impressionar em vários momentos. A selva peruana apresenta uma vegetação densa, ruínas escondidas e efeitos de luz que ajudam bastante a construir o ambiente, enquanto as cavernas e as estruturas antigas conseguem transmitir aquela sensação de mistério que sempre fez parte da série. A direção artística aproveita muito bem o contraste entre espaços naturais e construções abandonadas, criando ambientes que continuam bonitos apesar da idade do jogo. Os modelos das personagens e as sequências cinemáticas também envelheceram bem, embora algumas animações faciais e elementos dos cenários revelem naturalmente a geração em que a aventura foi desenvolvida. Na Nintendo Switch 2, a Aspyr conseguiu preservar grande parte dessa qualidade visual, mas a adaptação apresenta concessões visíveis. O jogo corre a 30 fotogramas por segundo, tanto no ecrã da consola como numa televisão, mantendo geralmente uma fluidez estável mesmo nas sequências mais movimentadas. Ainda assim, esperava-se uma opção de desempenho que permitisse alcançar uma fluidez superior. Também existem algumas falhas nas texturas, que por vezes que surgem demasiado tarde, elementos distantes com menor definição e situações em que a vegetação perde parte do pormenor comparativamente a outras plataformas.

A componente sonora mantém um bom nível, sobretudo na forma como utiliza os sons da natureza para reforçar o ambiente. A selva parece constantemente viva, com animais, água e ruídos ambientais que ajudam a criar alguma tensão durante a exploração. As tumbas beneficiam igualmente de um trabalho sonoro cuidado, especialmente quando mecanismos antigos começam a funcionar ou quando Lara atravessa estruturas em risco de colapso. A banda sonora acompanha bem os momentos mais intensos, embora raramente se destaque tanto como a própria ambientação. As interpretações também são competentes, com Camilla Luddington a manter um bom trabalho como Lara, mesmo quando o argumento não consegue dar à personagem o desenvolvimento que merecia.

CONCLUSÃO

CONCLUSÃO
7 10 0 1
Shadow of the Tomb Raider: Definitive Edition encerra a trilogia Survivor com uma aventura que aposta mais na exploração, nas tumbas e nos "puzzles" do que nos grandes confrontos. É precisamente aí que encontra os seus melhores momentos, oferecendo alguns dos desafios mais interessantes da série e uma excelente recriação dos ambientes da América do Sul. O enredo apresenta alguns problemas de ritmo, Lara nem sempre é bem desenvolvida e a menor presença de combates retira alguma variedade ao conjunto, mas a qualidade dos cenários e a exploração continuam a justificar a experiência. A conversão é competente e inclui todos os conteúdos adicionais, embora os 30 fotogramas por segundo e algumas limitações visuais deixem a sensação que fica aquém do potencial. Não é o capítulo mais conseguido da trilogia, mas continua a ser uma boa aventura e uma conclusão que merece ser descoberta, sobretudo por quem acompanha a evolução desta Lara Croft desde 2013.
Shadow of the Tomb Raider: Definitive Edition encerra a trilogia Survivor com uma aventura que aposta mais na exploração, nas tumbas e nos "puzzles" do que nos grandes confrontos. É precisamente aí que encontra os seus melhores momentos, oferecendo alguns dos desafios mais interessantes da série e uma excelente recriação dos ambientes da América do Sul. O enredo apresenta alguns problemas de ritmo, Lara nem sempre é bem desenvolvida e a menor presença de combates retira alguma variedade ao conjunto, mas a qualidade dos cenários e a exploração continuam a justificar a experiência. A conversão é competente e inclui todos os conteúdos adicionais, embora os 30 fotogramas por segundo e algumas limitações visuais deixem a sensação que fica aquém do potencial. Não é o capítulo mais conseguido da trilogia, mas continua a ser uma boa aventura e uma conclusão que merece ser descoberta, sobretudo por quem acompanha a evolução desta Lara Croft desde 2013.
7/10
Total Score

Pontos positivos

  • Exploração e tumbas entre as melhores da trilogia
  • "Puzzles" variados e bem construídos
  • Excelente ambientação nas selvas e ruínas do Peru

Pontos negativos

  • Enredo irregular e menos interessante do que nos capítulos anteriores
  • Algumas decisões de Lara pouco convincentes
  • Paititi prejudica o ritmo em determinados momentos
  • Limitado a 30 fotogramas por segundo

Nuno Nêveda

Calorias, nutrientes e Nintendo. Três palavras que definem o maior fã de F-Zero cá do sítio. Adepto de hábitos alimentares saudáveis, quando não anda atrás de uma balança, costuma estar ocupado com as notícias mais prementes e as análises mais exigentes.

Subscrever
Notificar de
0 Comentários
Mais Antigo
Mais Recente Mais Votado
Ver todos os comentários
Privacy Overview
Starbit

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.

Strictly Necessary Cookies

Strictly Necessary Cookie should be enabled at all times so that we can save your preferences for cookie settings.