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Fire Emblem: Fortune’s Weave – Análise

Fire Emblem: Fortune’s Weave marca a estreia na Nintendo Switch 2 da série de RPGs táticos da Intelligent Systems. Fortune’s Weave apresenta-se como uma prequela de Three Houses, mas sem obrigações para quem não tenha jogado aquele capítulo, e é provavelmente o jogo mais ambicioso da série no que diz respeito ao enredo, personagens, eventos e elementos.

Depois de uma introdução a um evento apocalíptico, o prólogo junta-se às funções de um tutorial, onde encarnamos uma personagem de nome Eshmel (personalizável, note-se) que acaba de ser ressuscitada sem recordações da sua vida passada, mas que é apresentada como providencial. As primeiras interações servem para familiarizar o jogador com as mecânicas, nomeadamente o combate. Terminado o prólogo, que faz um trabalho competente para nos aguçar o interesse pelo enredo, dada a gravidade dos acontecimentos, e uma boa apresentação das mecânicas de combate, Fortune’s Weave começa a mostrar o que faz dele um jogo tão ambicioso, e fá-lo ao longo de três partes, cada uma dividida em vários capítulos.

Para impedir os eventos apocalípticos do prólogo vamos usar a bênção de uma deusa e voltar atrás no tempo para encarnar o percurso de quatro personagens, conhecidas como Flame Lords, cujos espíritos enfrentámos no prólogo (digamos que não estavam a combater com o seu consentimento). Os quatro deslocam-se à cidade de Dagsion, capital do império Dagda (com uma estética inspirada na Roma antiga, com um coliseu, aqueduto e tudo), para participar nos grandes Jogos Heroicos, onde clãs e equipas de toda a parte do império competem em combates para ganhar a bênção do soberano divino, e cada personagem tem a sua personalidade e motivos para participar. O objetivo é alterar a história que nos foi apresentada no prólogo e contar com a ajuda dos Flame Lords para enfrentar o temível deus do submundo de nome Balor.

Cada percurso dos Flame Lords encontra-se dividido em doze capítulos, onde vamos combater contra adversários nos Jogos Heroicos, desenvolver as capacidades da nossa equipa, realizar missões para pessoas com quem nos cruzamos, comprar e vender armas e itens, fortalecer as ligações entre as nossas personagens… marcas indissociáveis de qualquer Fire Emblem que se preze. Estas atividades entram rapidamente numa rotina, e podem tornar-se um pouco repetitivas, mas são variadas. Desde praticar com armas até participar em peças de teatro, frequentar as termas ou partilhar refeições, a preparação para cada capítulo é importantíssima, por isso é muito aconselhável participar nas ações que nos permitem desenvolver capacidades.

A motivação está bem presente, o enredo é apresentado de forma cativante (ainda que com alguns lugares-comuns habituais) através dos diálogos, sequências cinemáticas, e narração num estilo semelhante ao de uma epopeia, e atiça muito a curiosidade do jogador. A maior crítica que se pode fazer é que por vezes, entre histórias, conversas entre personagens, missões secundárias, e indicadores respeitantes às capacidades das personagens e armas, são muitas coisas a que temos de prestar atenção. Apesar disso, está tudo ao nosso alcance. Sim, é muita coisa, sobretudo quando abrimos a interface e de início, temos alguma dificuldade em saber para onde nos virar ou que personagens novas recrutar. São muitas armas, muitos itens, muitos parâmetros a ter em conta, e é preciso um pouco de esforço para não nos perdermos. O mapa do império, onde também vamos ter de explorar e combater, demora o seu tempo a desbravar, mas é importante para obtermos recursos novos, cumprir missões secundárias e realizar combates para dar experiência à equipa. Fortune’s Weave conta ainda com pequenas secções de exploração (que não são níveis nem masmorras) onde obtemos recursos e combatemos, uma inovação que não fascina, mas tem a sua utilidade.

Tudo isto decorre com uma apresentação típica da série. A direção artística segue, como sempre, uma estética anime, com um uso muito variado de cores garridas e personagens com atributos físicos notáveis. A qualidade visual é razoável, embora não seja o maior motivo de destaque, mas cumpre muito bem a sua função, enquanto as animações dos combates (opcionais) e as sequências cinemáticas são muito interessantes de se observar. A banda sonora orquestral é magnífica, e conta com uma miríade de temas e composições para todas as situações, desde as mais simples às mais épicas, e mostra uma qualidade irrepreensível. É possível optar entre vocalizações em inglês e japonês, embora estas não estejam presentes em todos os momentos de diálogo. Quanto ao texto, encontra-se traduzido numa série de idiomas, mas não está disponível em português, o que constitui um obstáculo para jogadores mais jovens.

A estrutura permite-nos escolher como abordar o percurso, e entre cada capítulo da primeira parte do jogo há um intervalo de tempo definido por turnos. O número de turnos entre cada capítulo é variável, e é aqui que nos dedicamos às ações que nos ajudam a desenvolver as capacidades da equipa e missões secundárias, ou por outras palavras, a vertente social do jogo. A forma como o fazemos depende inteiramente do jogador: podemos passar à frente o número de turnos que quisermos e usar o mecanismo de atividades automáticas para desenvolver a nossa equipa, ou podemos abordar os turnos um por um e realizar ações que não podemos fazer de forma automática. O jogo é longo, mas é possível concluir a parte respeitante aos Jogos Heroicos de forma mais rápida, ainda que com contrapartidas. Surpreendentemente, também é possível saltar imediatamente para a terceira e última parte do jogo, onde realizamos uma série de combates contra as forças do submundo apenas com o grupo de personagens que conhecemos no prólogo…, mas seguir esta via é como nadar contra a corrente num mar encrespado: extenuante, inglório, e condenado ao fracasso.

Concluir o percurso de cada Flame Lord permite contar com a sua ajuda mais tarde, e a escolha não é rígida, já que a qualquer momento o jogo permite seguir direções paralelas: podemos pegar num Flame Lord de cada vez e concluir os seus doze capítulos antes de seguirmos o próximo, ou podemos escolher realizar cinco capítulos com Theodora, a orgulhosa rainha de Saramis, antes de espreitar o percurso de Dietrich, um temível espadachim, e depois pegarmos em Cai, o mais jovem dos Flame Lords. O enredo encontra-se estruturado de forma que as histórias das quatro personagens e os membros das suas equipas interajam uns com os outros de forma complementar, o que é sempre interessante de ver já que os desenvolvimentos não se repetem mas intersectam-se de forma bem pensada, já que o percurso de cada uma decorre ao mesmo tempo que o das outras. Entrar nos meandros do enredo daria material para encher várias páginas, basta dizer que após os Jogos Heroicos ocorrem eventos extremamente graves, e a nossa experiência vai ser crucial.

Felizmente, Fortune’s Weave faz um bom trabalho para nos preparar. Os combates exigem atenção ao pormenor: temos de ter em conta as capacidades do inimigo, as suas armas, probabilidades de nos atingir, o terreno que nos pode dar uma vantagem ou desvantagem… tudo isto já existia nos jogos anteriores, e aqui volta a marcar presença de forma exemplar. Os nossos Flame Lords contam ainda com uma habilidade conhecida como Blaze Arts, que permitem utilizar ataques mágicos devastadores, mas com contrapartidas pesadas. As bênçãos dos deuses são outro elemento muito importante nos combates, já que concedem melhores parâmetros de ataque, defesa ou outras características à nossa fação durante um turno, e dependem do nosso serviço nos templos durante o jogo. Não são gratuitas, Fortune’s Weave não oferece estas graças de forma ilimitada, mas contribuem para um ambiente simultaneamente exigente e justo para o jogador, onde sofrer metade dos danos físicos durante um turno, por exemplo, pode muito bem salvar a missão. Neste aspeto, a bênção da deusa Fortuna (integrada no enredo do jogo) assume uma importância particular, já que permite voltar atrás no tempo a um momento à escolha durante um combate. Pode ser usada de forma ilimitada no nível de dificuldade mais acessível, mas não altera o desenvolvimento do combate: as probabilidades de os ataques serem certeiros ou de falharam são as mesmas, a bênção funciona antes como uma oportunidade de o jogador abordar a mesma situação de outra forma.

Por falar em acessibilidades, também podemos desativar a morte permanente das nossas personagens quando caem em combate, uma das imagens de marca de Fire Emblem mas que deixou de ser um dogma. Pode-se dizer que Fortune’s Weave oferece escolhas que permitem abordar o jogo com um nível de exigência flexível, algo que sem dúvida permite o acesso a mais pessoas e que não será alheio ao sucesso comercial crescente da série. É legítimo perguntar se isto não é apenas uma forma de o jogo reconhecer que a sua dificuldade é exageradamente punitiva, e oferece então uma série de alívios bem-vindos ao jogador. Mas também pode ser encarada como um ponto de referência, onde nos sentimos mais à vontade à medida que a nossa experiência cresce. Finalmente, é também possível a qualquer momento utilizar o Joy-Con da Switch 2 como um rato, uma funcionalidade útil nos combates e menus da interface, já que por vezes são precisos muitos toques nos botões para chegarmos onde queremos.

Fortune’s Weave é suficientemente variado e rico para ir além da velha fórmula Fire Emblem que consistia essencialmente num ciclo de combate e preparação. Temos combates, muitos, e preparações, muitas, mas como já foi dito, temos muitas coisas a acontecer e tarefas a cumprir, e até um pouco de exploração. Fortune’s Weave não é um jogo onde paramos para apreciar as vistas, mas é um jogo onde paramos para apreciar o desenvolvimento do enredo e para pensar no que vamos fazer a seguir. A curva de aprendizagem pode ser intimidante para quem é recém-chegado, mas dificilmente se mostra hostil para quem conhece a série… pelo menos durante a primeira parte do jogo, já que a partir daí estamos perante um desafio bem mais duro, e a opção de desativar a morte permanente torna-se muito útil. O enredo pode deixar-nos um pouco confusos, mas com dedicação criamos a devida estrutura mental onde encaixamos os acontecimentos e personagens, ainda que alguns momentos façam pouco sentido de início, como a sequência cinemática onde vemos um combate a decorrer num cenário moderno com uma autoestrada e edifícios contemporâneos, ou um uso de uma arma de satélite… mais cedo ou mais tarde, a peça encaixa. Como também vão encaixar os três conteúdos adicionais. O primeiro já se encontra disponível e traz consigo quatro armas novas feitas com base nas relíquias de Fire Emblem: Three Houses, enquanto os seguintes, que serão lançados no final deste ano e no ano seguinte, vão permitir que alguns dos deuses entrem nos combates e ainda desbloquear percursos novos para mais quatro personagens que conhecemos aqui. Como se o jogo fosse curto.

Que mais se pode dizer? Fortune’s Weave larga-nos muita coisa em cima, mas ninguém pega nele a pensar que se trata de um simples jogo de agricultura (que, diga-se, também faz uma breve aparição). A verdade é que o tempo passa muito depressa durante a experiência, e isso é porque Fortune’s Weave é um belíssimo jogo, ainda que exija sangue, suor e lágrimas. Num momento, estamos a combater inimigos acessíveis e a fazer experiências com a nossa equipa: enviar um mago ou uma sacerdotisa contra inimigos armados com lanças é sensato? Mais à frente, estamos num combate onde verificamos as nossas decisões mil vezes antes de avançar, porque vamos ter trinta adversários fortíssimos e a nossa equipa conta com sete ou oito elementos… e depois juntam-se ainda mais inimigos. Fortune’s Weave faz isso bem, atrai-nos para uma dinâmica que é fácil de perceber, mas muito dura para se dominar. E tudo isto é acompanhado por um enredo muito ambicioso, que embora não resista a alguns lugares-comuns, nunca deixa de ser interessante de seguir, mesmo que na parte final muitos dos eventos que testemunhámos sejam triviais face à ameaça existencial do submundo. Graças aos deuses pelos deuses de Fortune’s Weave, se não fossem eles os nossos heróis não iam muito longe, e o jogador também não. Exigente, cativante, duro, viciante, rico, extenuante… Fire Emblem: Fortune’s Weave é tudo isto, ao longo de uma duração que pode ultrapassar as 130 horas, e que vai ganhar mais algumas dezenas quando chegarem a segunda e a terceira expansão. Consome-nos como se do Caldeirão de Dagda se tratasse (sem “spoilers”), e ainda bem que assim é.

CONCLUSÃO

CONCLUSÃO
9 10 0 1
Fire Emblem: Fortune's Weave é uma carga monumental em praticamente tudo o que faz. Um enredo colossal, com múltiplas personagens, motivos, personalidades e estilos, e uma abordagem flexível. Um combate exigente como é habitual em Fire Emblem, e que nos convida com um desafio acessível mas que nos massacra mais tarde se nos descuidarmos. Uma miríade de atividades, interações, armas e itens para desenvolver as nossas personagens. Um mundo esteticamente convidativo, com uma banda sonora magistral, cores garridas e belas animações. ...e mais de uma centena de horas de conteúdo, que passam depressa quando estamos motivados. Tem os seus obstáculos, e por vezes podemos perder um pouco a noção das coisas, mas o jogo não nos deixa cair na complacência, e rapidamente vamos querer vencer, custe o que custar. Um jogo destes fazia falta.
Fire Emblem: Fortune's Weave é uma carga monumental em praticamente tudo o que faz. Um enredo colossal, com múltiplas personagens, motivos, personalidades e estilos, e uma abordagem flexível. Um combate exigente como é habitual em Fire Emblem, e que nos convida com um desafio acessível mas que nos massacra mais tarde se nos descuidarmos. Uma miríade de atividades, interações, armas e itens para desenvolver as nossas personagens. Um mundo esteticamente convidativo, com uma banda sonora magistral, cores garridas e belas animações. ...e mais de uma centena de horas de conteúdo, que passam depressa quando estamos motivados. Tem os seus obstáculos, e por vezes podemos perder um pouco a noção das coisas, mas o jogo não nos deixa cair na complacência, e rapidamente vamos querer vencer, custe o que custar. Um jogo destes fazia falta.
9/10
Total Score

Pontos positivos

  • Ambiciosíssimo em todas as dimensões
  • Personagens e eventos ricos e variados
  • Estrutura deixa margem para as escolhas do jogador
  • Banda sonora magistral
  • Flexível na dificuldade

Pontos negativos

  • Pode ser arrebatador para os recém-chegados
  • Interface algo pesada de início
  • Sem tradução para português

João Dias

Apreciador de jogos de outras épocas, não diz que não a uma boa obra dos nossos tempos. Diz-se que é por ele que passam os textos antes da publicação, o que significa que é uma espécie de boss final da escrita para os outros membros da equipa.

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