The Crew Motorfest – Análise
A série The Crew começou por apostar numa ideia ambiciosa, permitindo atravessar uma enorme recriação dos Estados Unidos ao volante de diferentes veículos, com uma liberdade pouco habitual nos jogos de condução da altura. O segundo capítulo alargou essa filosofia às motas, barcos e aviões, mas foi com The Crew Motorfest, lançado originalmente em 2023, que a Ubisoft Ivory Tower alterou significativamente a identidade da série. O mapa continental deu lugar ao Havai e a estrutura passou a estar centrada num festival dedicado à cultura automóvel, numa abordagem claramente próxima do que a Playground Games tem feito com Forza Horizon. Três anos depois, chega finalmente à Nintendo Switch 2 com uma quantidade impressionante de conteúdo e um mundo aberto que continua bastante agradável de explorar. A adaptação preserva grande parte da experiência original, embora as limitações técnicas e algumas decisões da Ubisoft acabem por limitar o valor de uma versão que tinha tudo para ser uma das grandes referências de condução na consola.

O Havai é uma escolha excelente para um jogo deste género. As ilhas de O’ahu, Maui e Kauai oferecem estradas costeiras, zonas urbanas, montanhas, florestas e percursos de terra batida, permitindo passar de uma corrida em asfalto para uma prova todo-o-terreno sem que a mudança pareça demasiado artificial. A variedade dos ambientes é um dos principais atrativos de Motorfest e há aqui uma satisfação muito simples em abandonar uma competição e continuar a conduzir sem destino, apenas para conhecer outra parte do mapa. A recriação não tenta ser uma representação rigorosa do arquipélago, privilegiando antes a diversidade e a proximidade entre diferentes tipos de terreno, mas o resultado funciona bem. Nem sempre é necessário ter uma corrida marcada para encontrar alguma coisa interessante e por vezes, atravessar uma estrada junto ao mar é tão agradável como participar num dos muitos eventos disponíveis.

A condução continua claramente voltada para uma experiência “arcade”, embora tente dar alguma personalidade aos veículos. Os automóveis são relativamente fáceis de controlar, as curvas podem ser abordadas com alguma agressividade e o jogo privilegia a sensação de velocidade em vez das exigências minuciosas de uma simulação. Ainda assim, conduzir um superdesportivo em asfalto não é exatamente o mesmo que enfrentar uma estrada de montanha com um carro de ralis, e essa diferença ajuda a justificar a enorme variedade disponível. A física e o comportamento dos veículos são competentes mas nem sempre refinados, sobretudo quando se compara diretamente com os melhores jogos do género. Há uma tendência para simplificar demasiado algumas reações e os contactos entre automóveis continuam a parecer pouco naturais, o que prejudica as corridas mais disputadas. A inteligência artificial também apresenta resultados irregulares. Algumas provas são bastante equilibradas, e é necessário escolher bem as trajetórias e evitar erros para vencer, mas outras ficam demasiado dependentes de comportamentos pouco convincentes dos adversários. Em alguns momentos parece existir uma tentativa excessiva de manter todos os concorrentes próximos, independentemente da qualidade da condução. O sistema de dificuldade permite ajustar a exigência e encontrar um compromisso razoável, mas nunca elimina completamente esta sensação.

A progressão está organizada principalmente através das Playlists, conjuntos de provas dedicados a diferentes estilos de condução e momentos da história automóvel. Algumas colocam o jogador ao volante de modelos clássicos, outras exploram a cultura dos automóveis japoneses, as corridas de rua, os superdesportivos ou as competições fora de estrada. Esta estrutura é uma das melhores decisões da Ivory Tower porque evita que a campanha se transforme numa longa sequência de corridas sem grande ligação entre si. Cada Playlist apresenta uma identidade própria, com veículos e desafios selecionados para acompanhar o tema, e dá contexto ao que estamos a conduzir. Nem todas são igualmente interessantes e algumas explicações tornam-se demasiado insistentes, mas a variedade ajuda a manter a experiência fresca durante muitas horas. A quantidade de veículos é outro dos grandes argumentos de Motorfest. A garagem inclui centenas de automóveis de diferentes épocas, motas, aviões e embarcações, com uma seleção que vai manter ocupados os apreciadores da cultura motorizada. Existe ainda um sistema de personalização para alterar o aspeto e melhorar o desempenho dos veículos, oferecendo razões para continuar a participar em eventos mesmo depois de terminar uma Playlist. O problema é que a progressão nem sempre disfarça a repetição, sobretudo quando algumas recompensas exigem participar várias vezes em atividades semelhantes. A presença de diferentes moedas e conteúdos pagos também sobrecarrega alguns menus além do desejável, embora exista uma quantidade considerável de veículos e recompensas que podem ser obtidas através da jogabilidade.

Este lançamento na Switch 2 beneficia de anos de atualizações recebidas desde a estreia original. O mapa cresceu, chegaram novas Playlists e a quantidade de atividades disponíveis é bastante superior à encontrada em 2023. A introdução de Kauai acrescenta outra região à exploração, enquanto o TrackForge permite criar e experimentar circuitos desenvolvidos pela comunidade. É uma boa forma de prolongar a experiência para lá dos eventos oficiais, sobretudo para quem aprecia descobrir percursos novos ou competir em desafios menos convencionais. O problema é que esta abundância também torna a interface algo confusa. Há tantas atividades, notificações e recompensas que nem sempre é fácil perceber o que merece mais atenção. O multijogador traz outra dimensão ao festival, com competições que podem reunir um grande número de participantes. A Grand Race é particularmente interessante pela dimensão das corridas e necessidade de lidar com vários adversários em percursos com diferentes tipos de veículos. É caótica, sobretudo durante os primeiros segundos, quando demasiados jogadores tentam ocupar o mesmo espaço, mas é essa imprevisibilidade que torna algumas provas memoráveis. A versão Switch 2 permite participar em determinadas atividades com jogadores de outras plataformas, embora o suporte para “cross-play” não seja completo. Em contrapartida, o avanço pode ser partilhado através da conta Ubisoft, permitindo continuar uma carreira iniciada noutro sistema, mas os conteúdos adicionais comprados noutras plataformas não são transferidos automaticamente.

A grande preocupação desta adaptação estava naturalmente na forma como a Switch 2 iria lidar com um mundo aberto desta dimensão. A Ubisoft optou por uma resolução de 1080p e por limitar o desempenho a 30 fotogramas por segundo, tanto em modo portátil como na televisão. É uma decisão compreensível tendo em conta a quantidade de elementos no cenário, mas que acaba por prejudicar a experiência quando comparada com versões de maior fluidez. Num jogo de condução, onde a velocidade e a resposta dos controlos são importantes, a diferença entre 30 e 60 fps continua a sentir-se, especialmente nas corridas mais rápidas ou quando é necessário fazer correções de trajetória. O desempenho mantém-se geralmente estável, mas notam-se oscilações pontuais, sobretudo em situações com muitos veículos e efeitos simultâneos. Visualmente, percebe-se que a qualidade da imagem é inferior à das versões para plataformas mais poderosas, certos elementos dos cenários perdem definição e a vegetação ou outros objetos distantes podem surgir de forma demasiado percetível à medida que nos aproximamos. Também existem reduções na qualidade de algumas sombras, reflexos e efeitos, embora o trabalho artístico continue a permitir paisagens bastante agradáveis. No ecrã da consola, as limitações são menos evidentes e o jogo apresenta um resultado convincente, sobretudo durante as corridas diurnas. Numa televisão de maior dimensão a diferença torna-se bastante mais clara e seria desejável ter uma opção capaz de privilegiar a fluidez, mesmo que implicasse limitar ainda mais determinados elementos gráficos.
Apesar das limitações técnicas, a experiência continua agradável de se jogar. Os controlos respondem de forma competente, a sensação de velocidade continua presente e os carregamentos são relativamente rápidos, o que evita longas interrupções entre a garagem, o mundo aberto e as competições. A ausência de gatilhos analógicos nos comandos da Nintendo pode retirar alguma precisão ao acelerador e ao travão, sobretudo nas provas onde é importante controlar cuidadosamente a potência aplicada às rodas, mas não compromete a experiência. A apresentação sonora também merece destaque, com motores suficientemente distintos, uma banda sonora variada e aquele ambiente constante de festival que acompanha praticamente todas as atividades. A música nem sempre será do agrado de todos, mas combina bem com o carácter descontraído da experiência. Existe, contudo, uma decisão difícil de compreender numa versão para uma consola com capacidade portátil. The Crew Motorfest exige uma ligação permanente à internet, mesmo se quisermos apenas explorar o mapa ou participar nas atividades individuais. Esta obrigação já era questionável nas outras plataformas, mas é incompreensível na Switch 2, onde a possibilidade de jogar em qualquer lado deveria ser uma das maiores vantagens. Levar a consola numa viagem, num transporte ou para um local sem uma ligação estável deixa de garantir acesso ao jogo, retirando grande parte da liberdade que associamos ao formato portátil.
CONCLUSÃO
CONCLUSÃOPontos positivos
- Mundo aberto extenso e agradável de explorar
- Enorme quantidade de atividades e desafios
- Playlists oferecem campanhas temáticas interessantes
- Boa sensação de velocidade e controlos competentes
Pontos negativos
- Limitações visuais evidentes na Nintendo Switch 2
- Limitado a 30 fotogramas por segundo
- Progressão pode tornar-se repetitiva
- Ligação permanente à internet obrigatória

Calorias, nutrientes e Nintendo. Três palavras que definem o maior fã de F-Zero cá do sítio. Adepto de hábitos alimentares saudáveis, quando não anda atrás de uma balança, costuma estar ocupado com as notícias mais prementes e as análises mais exigentes.

