AnálisesSwitch 2

Culdcept BEGINS – Análise

Culdcept Revolt para a Nintendo 3DS passou de forma relativamente despercebida, o que deixa no ar uma certa sensação de injustiça dada a qualidade e profundidade daquele jogo. Culdcept BEGINS chega à Nintendo Switch e Switch 2 dez anos depois de Revolt e tenta simultaneamente recuperar os seguidores da série e tornar o seu sistema tradicionalmente complexo mais acessível a novos jogadores.

A base de Culdcept desenrola-se em tabuleiros onde os jogadores lançam dados para se deslocarem. Quando chegamos a uma casa livre podemos colocar uma criatura e assumir o controlo daquele espaço. Caso outro jogador pare nessa casa tem de pagar uma determinada quantia ou tentar conquistá-la através de um combate. É neste ponto que o jogo começa a afastar-se de uma simples experiência de tabuleiro e revela toda a sua componente estratégica. Em Culdcept BEGINS assumimos o papel de Kamru, um jovem que entra para a Royal Cept Academy, instituição onde são treinados os chamados Cepters. Estes combatentes utilizam Culds, fragmentos de um antigo livro mágico que lhes permitem invocar criaturas e usar diferentes feitiços. O enredo decorre no continente de Bavrashka e acaba por colocar o protagonista no centro de um conflito que ameaça toda a região. O enredo cumpre a sua função. Apresenta o mundo e introduz gradualmente as várias mecânicas, mas nunca chega a ser o elemento mais importante da experiência. As personagens seguem arquétipos bastante reconhecíveis, os acontecimentos são algo previsíveis e a campanha funciona muitas vezes como um tutorial prolongado. Ainda assim, esta abordagem acaba por ser positiva num jogo onde existem vários sistemas para aprender e onde uma introdução demasiado rápida poderia facilmente afastar os jogadores menos habituados ao género.

Culdcept BEGINS inclui mais de quatrocentas cartas divididas entre criaturas, itens e feitiços. As criaturas permitem ocupar ou conquistar casas, os itens reforçam as unidades durante os confrontos e os feitiços podem beneficiar o próprio jogador ou dificultar a progressão dos adversários. Construir um baralho equilibrado torna-se rapidamente uma das partes mais interessantes do jogo, porque cada nova carta abre possibilidades diferentes e incentiva a experimentar estratégias alternativas. Os combates dependem das criaturas colocadas no terreno, das suas características e dos itens utilizados por cada jogador. O atacante pode escolher uma criatura adequada para tentar conquistar o território, enquanto o defensor beneficia da posição ocupada e pode reforçar a sua unidade. Existem ainda afinidades elementares, habilidades especiais e várias cartas capazes de alterar por completo o resultado de uma batalha. A grande virtude do sistema está na forma como consegue combinar profundidade estratégica e acessibilidade. As regras iniciais são relativamente simples, mas as possibilidades aumentam à medida que surgem novos tabuleiros, cartas e adversários. Um baralho focado em criaturas fortes pode funcionar numa determinada situação, enquanto noutro mapa poderá ser mais eficaz privilegiar feitiços, controlo territorial ou cartas que manipulem o movimento dos jogadores.

Esta flexibilidade dá muita longevidade à experiência e faz com que as partidas raramente se desenrolem exatamente da mesma forma. Mesmo depois de conhecermos as regras, há sempre novas combinações para testar, cartas para obter e formas diferentes de responder às estratégias dos adversários. No entanto, a sorte tem um peso considerável. O lançamento dos dados pode levar-nos à casa mais perigosa do adversário ou impedir que completemos um plano elaborado. A estratégia permite reduzir parte desse risco mas não o elimina, e existem momentos em que uma partida aparentemente controlada muda por completo devido a uma sequência desfavorável. Esta imprevisibilidade faz parte da identidade da série Culdcept, e ajuda a criar partidas tensas e momentos de viragem interessantes. Ainda assim, também pode tornar-se frustrante, sobretudo quando o jogador sente que as decisões tomadas foram anuladas por um lançamento de dados. Quem não tolera bem este tipo de arbitrariedade pode passar por algumas dificuldades.

A componente multijogador é onde o jogo revela maior potencial. É possível competir contra outros jogadores online e a função GameShare permite que até quatro pessoas participem usando apenas uma cópia do jogo, seja através de uma ligação próxima ou do GameChat. É uma funcionalidade particularmente adequada a uma experiência que beneficia muito da competição entre jogadores reais. Ainda assim, não existe uma opção de multijogador convencional na mesma consola, cada jogador precisa da sua própria Switch ou Switch 2, mesmo recorrendo ao GameShare, o que limita a espontaneidade de uma experiência que tem uma estrutura muito próxima de um jogo de tabuleiro.

Visualmente, Culdcept BEGINS apresenta uma direção artística simpática e coerente, com personagens e cartas que adotam um estilo mais ligeiro e colorido. Os menus são claros e apresentam bem a grande quantidade de informação necessária durante as partidas. No entanto, a apresentação da campanha é bastante simples, recorrendo sobretudo a cenários estáticos, personagens com animações limitadas e sequências pouco elaboradas. A versão do jogo para Nintendo Switch 2 beneficia de uma resolução superior, maior fluidez, controlos com função de rato e permite usar o GameShare. As melhorias tornam a interface mais aprazível e a navegação pelos menus mais rápida, embora não transformem radicalmente uma apresentação que continua a revelar uma produção relativamente modesta. O uso dos Joy-Con 2 como rato acaba por ser útil na gestão dos baralhos e na consulta das cartas, mas não é uma funcionalidade indispensável. O principal benefício desta versão encontra-se na maior nitidez e fluidez, que ajudam a acompanhar um tabuleiro onde existe frequentemente muita informação para interpretar. Também é importante referir que Culdcept BEGINS não inclui tradução para português. Num jogo onde é necessário compreender descrições, habilidades e os efeitos específicos de centenas de cartas, isto cria uma barreira para jogadores menos fluentes em inglês.

CONCLUSÃO

CONCLUSÃO
9 10 0 1
Culdcept BEGINS recupera uma fórmula muito particular e consegue torná-la mais acessível sem retirar a profundidade que define a série. A combinação entre jogo de tabuleiro, construção de baralhos e controlo territorial resulta numa experiência estratégica, viciante e com enorme margem para a experimentar. A campanha cumpre bem o papel de introduzir sistemas, mas o enredo e a apresentação visual ficam aquém da qualidade da jogabilidade. A arbitrariedade também tem momentos capazes de testar seriamente a paciência do jogador. Ainda assim, para quem gosta de jogos de tabuleiro, cartas e competição estratégica, Culdcept BEGINS é uma proposta diferente, muito completa e capaz de justificar dezenas de horas de jogo.
Culdcept BEGINS recupera uma fórmula muito particular e consegue torná-la mais acessível sem retirar a profundidade que define a série. A combinação entre jogo de tabuleiro, construção de baralhos e controlo territorial resulta numa experiência estratégica, viciante e com enorme margem para a experimentar. A campanha cumpre bem o papel de introduzir sistemas, mas o enredo e a apresentação visual ficam aquém da qualidade da jogabilidade. A arbitrariedade também tem momentos capazes de testar seriamente a paciência do jogador. Ainda assim, para quem gosta de jogos de tabuleiro, cartas e competição estratégica, Culdcept BEGINS é uma proposta diferente, muito completa e capaz de justificar dezenas de horas de jogo.
9/10
Total Score

Pontos positivos

  • Excelente ponto de entrada na série
  • Combinação original entre jogo de tabuleiro e de cartas
  • Profundidade estratégica

Pontos negativos

  • Arbitrariedade pode tornar algumas partidas frustrantes
  • Sem multijogador local na mesma consola
  • Sem tradução para português

Sérgio Mota

Após passar grande parte da sua infância em Hyrule e no Mushroom Kingdom dedica-se agora a explorar o vasto universo digital que o rodeia. Embora seja entusiasta de novos títulos é possível encontrá-lo frequentemente a revisitar os clássicos.

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