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The Perfect Pencil – Análise

O nome The Perfect Pencil pode levar ao engano. Não, este não é um jogo onde a jogabilidade se baseia no desenho ou em ilustrações. É um “metroidvania”, o que talvez seja algo surpreendente quando o nosso primeiro contacto é o título e a imagem de um protagonista que tem um corpo muito semelhante a um corpo humano mas a sua cabeça é uma câmara. Um primeiro olhar sobre esta obra (inaugural) da produtora italiana Studio Cima acaba por nos deixar com mais dúvidas do que esperávamos. O que temos então aqui? É pouco comum, mas The Perfect Pencil começa por nos avisar que o jogo trata de temas relacionados com emoções e saúde mental que nos podem deixar perturbados. Não é um jogo com uma temática de terror no seu sentido mais habitual, mas vamos deparar-nos com situações e personagens que se encontram em espaços mentalmente muito soturnos, e que assumem comportamentos e exprimem pontos de vista semelhantes aos de pessoas deprimidas e com problemas semelhantes. O que tem esta temática a ver com um “metroidvania” de plataformas e “puzzles”? A Studio Cima tratou disso, e de forma exemplar.

O jogo começa com o nosso protagonista (de nome John) em estado de amnésia e sem cabeça. Após uma breve interação com outra personagem, John recebe uma câmara que coloca sobre o pescoço. Camara Obscura é o nome do objeto que vai desempenhar funções importantes durante a experiência. É também aqui que temos o primeiro vislumbre da Fera Branca, criatura assustadora que segundo nos é dito, é responsável pelo estado de toda a gente que vamos encontrar ao longo do jogo, embora ainda não saibamos muito bem o que isso quer dizer, e é também estabelecido o nosso objetivo: sair daquele espaço. A jogabilidade segue as convenções habituais de um “metroidvania”. Vamos explorar locais, abrir espaços que se encontravam inacessíveis, aprender movimentos, encontrar objetos, atacar inimigos e “bosses” com um lápis, a nossa arma, e desbloquar habilidades (a forma como a descoberta destas habilidades é integrada é de louvar). Os cenários, personagens e objetos foram desenhados à mão e a fluidez dos movimentos assemelha-se a algo saído de um filme de animação, com um desempenho exemplar na Nintendo Switch 2. As cores são belíssimas, tal como o pormenor dos desenhos e a variedade de locais, onde passamos de uma floresta para um hotel, para uma cidade e para uma caverna. As personagens e inimigos que encontramos apresentam um desenho é simultaneamente perturbador e quase cómico ou caricatural. A banda sonora não podia ser mais adequada. Simples e até minimalista em alguns pontos, torna-se perturbadora e distorcida nos momentos em que o ambiente muda. As composições não são muito complexas, mas representam muito bem o percurso de John e as situações que encontramos.

Vamos deparar-nos com (muitas) personagens embrulhadas em cobertores com medo de enfrentar o mundo, e até alguns inimigos, incluindo vários inimigos que não nos atacam de forma proativa mas que nos fazem mal se lhes tocarmos. A forma como se expressam não deixa margem para dúvidas, todas estas personagens estão a lidar com problemas psicológicos, tal como o nosso protagonista que em muitas ocasiões, vai realizar pequenas tarefas para algumas personagens que se encontram num estado demasiado constrangedor e com medo do mundo. Num dos momentos mais memoráveis do jogo, John vê-se na posição de juiz e cabe ao jogador escolher as penas a aplicar aos réus, sendo que muitas delas são dirigidas às suas maiores inseguranças… até ao momento em que é o próprio John a ser julgado, seguido de um “boss” bastante exigente. The Perfect Pencil destaca-se tanto pelo tema e pela direção artística que acaba por fazer a jogabilidade parecer mediana, sem que isto seja uma crítica negativa, longe disso. A câmara que John tem no lugar da cabeça, por exemplo, é usada para analisar objetos mediante um alerta que recebemos no canto superior direito do ecrã. Na maioria dos casos esta função desempenha um papel secundário de revelação sobre outras personagens e eventos, embora também possa ser usada para encontrar habilidades ou objetos novos.

Os controlos e movimentos de John funcionam bastante bem. Os ataques e saltos, comandos simples e que se tornam mais elaborados à medida que avançamos, respondem de forma correta, e não nos deixam com uma má impressão. John começa o jogo com uma habilidade pré-ativada que permite recuperar energia ao atingir um inimigo se antes de realizar o ataque, gastarmos um pouco do indicador de Coragem. Se os inimigos comuns não são complicados, os “bosses” vão exigir um pouco mais de paciência e dedicação, e em alguns casos demoram demasiado tempo a vencer. Nota-se também que alguns espaços a percorrer são demasiado longos entre um ponto e outro, sobretudo quando perdemos uma vida. É verdade que os novos lugares que desbloqueamos encaixam num tronco comum, o que permite abrir uma área de jogo contígua, mas por vezes as distâncias são muito longas e vazias a partir do ponto de salvaguarda, o que acaba por criar algum tédio. Mas não há qualquer dúvida que estamos perante um jogo bem pensado a nível de tema e imersão. Os espaços que atravessamos são facilmente identificáveis como representativos de problemas psicológicos mais ou menos graves, e há uma série de elementos no jogo que o ilustram muito bem. No hotel, um dos grandes espaços de The Perfect Pencil, podemos ficar perfeitamente descansados se escolhermos dormir durante dez horas, mas se dormirmos durante cem horas John vai ficar mais fragilizado e cansado. Um pouco mais à frente, deparamo-nos com uma personagem aterrorizada, o que nos deixa a pensar que estamos perto de um “boss”… mas não é mais do que um ecrã de projeção. O jogo está cheio de pormenores que são ao mesmo tempo cativantes, perturbadores, e fáceis de identificar: todos nós já passámos ou conhecemos alguém que já passou por alguns dos problemas aqui retratados. Construir um “metroidvania” à volta desta temática, e que funciona bem, é muito positivo.

CONCLUSÃO

CONCLUSÃO
8 10 0 1
The Perfect Pencil é um "metroidvania" convencional na jogabilidade e muito singular no tema e enredo. Se as mecânicas são as habituais, e funcionam muito bem, a imersão e integração no mundo do jogo são surpreendentes pela forma como abordam problemas emocionais e de saúde mental. A direção artística e desempenho são belíssimos e os controlos funcionam muito bem, o que contribui para uma experiência muito interessante, embora am alguns pontos seja um pouco aborrecida.
The Perfect Pencil é um "metroidvania" convencional na jogabilidade e muito singular no tema e enredo. Se as mecânicas são as habituais, e funcionam muito bem, a imersão e integração no mundo do jogo são surpreendentes pela forma como abordam problemas emocionais e de saúde mental. A direção artística e desempenho são belíssimos e os controlos funcionam muito bem, o que contribui para uma experiência muito interessante, embora am alguns pontos seja um pouco aborrecida.
8/10
Total Score

Pontos positivos

  • Integração das mecânicas de jogo no tema e enredo
  • Direção artística magnífica
  • Controlos e desempenho irrepreensíveis

Pontos negativos

  • Em alguns pontos torna-se um pouco aborrecido

João Dias

Apreciador de jogos de outras épocas, não diz que não a uma boa obra dos nossos tempos. Diz-se que é por ele que passam os textos antes da publicação, o que significa que é uma espécie de boss final da escrita para os outros membros da equipa.

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