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Nocturnal – Análise

Nocturnal, um jogo de ação em plataformas 2D da autoria da produtora suíça Sunnyside Games, é apresentado como uma homenagem a Prince of Persia, algo que sobressai rapidamente com os primeiros minutos de jogo. Indo além do clássico da década de 1990 a que presta homenagem, Nocturnal apresenta uma mecânica proeminente muito própria ao longo da experiência. O enredo – simples, e sobretudo um motivo para a ação – conta-nos que o herói regressou à sua terra depois de muito tempo fora e encontra-a avassalada por uma força que, na tradução competente para português do Brasil que o jogo inclui, é conhecida como Névoa. Na busca pela sua irmã, o protagonista descobre que muitos dos seus conterrâneos pereceram devido à Névoa. Outros que eram seus antigos camaradas na ordem de guerreiros a que pertencia vêem-no agora como um traidor e atacam-no. Já alguns sobreviventes com quem dialoga pelo caminho encontram-se completamente resignados ao crescimento imparável da Névoa. Sem demasiadas revelações, a conclusão do jogo está longe de caber nos lugares-comuns de um “final feliz”.

O que é a Névoa? É uma força maléfica que envolve os locais e as pessoas numa escuridão praticamente impenetrável e que se revela fatal para o nosso protagonista se passarmos demasiado tempo (leia-se, alguns segundos) dentro dela. Para evitar esse desfecho vamos ter de percorrer os locais envoltos pela Névoa com uma chama na nossa espada a iluminar o caminho. A chama tem uma duração limitada, por isso vamos ter de acender as tochas que se encontram pelos corredores como forma de ela não se apagar – e em alguns momentos para podermos abrir a porta para a próxima secção. Nem todos os espaços estão envoltos pela Névoa, mas sempre que entramos numa secção mergulhada nas trevas temos de redobrar cuidados, pois além de a nossa esperança de vida estar em risco, os inimigos que se encontram dentro da Névoa só podem ser combatidos se tivermos uma chama na nossa espada, atingi-los com uma lâmina apagada não lhes causa efeito algum. Felizmente Nocturnal não conta com ‘vidas’ e tem múltiplos pontos de salvaguarda, o que significa que se formos engolidos pela Névoa ou a nossa barra de energia se esgotar devido aos ataques inimigos, o jogo devolve-nos ao último ponto de salvaguarda. Estas opções merecem um destaque bastante positivo, já que eliminam a necessidade de repetir percursos demasiado longos, o que traria consequências negativas para a experiência. Também não existem aqui “power-ups” no que em relação à vida diz respeito – em vez disso, para recuperar temos de nos colocar próximos de uma tocha ardente e, com uma chama na espada, carregar no botão ‘L’ durante dois segundos, algo que nem sempre é possível fazer em momentos de combate mais intenso. À medida que avançamos obtemos novos ataques auxiliares – poucos, uma vez que Nocturnal não é um jogo longo, mas bem-vindos.

O desenho dos níveis – ou talvez se devesse dizer antes do mundo de jogo, uma vez que aqui não há ‘níveis’ propriamente ditos – é interessante, e em vários momentos temos os reflexos e a destreza postos à prova, seja para fugir a uma vaga de Névoa que se aproxima, seja apenas para descobrir como seguir caminho, e nota-se uma intensidade mais exigente na segunda metade do percurso. Embora o jogo seja relativamente linear, obriga a um pouco de exploração em alguns momentos, onde precisamos de queimar um objeto para descobrir o mecanismo que nos leva à secção seguinte. Se encontrarmos uma via que parece diferente é porque provavelmente ela leva-nos a uma página onde se explicam os eventos de Nocturnal, ou a uma estátua onde podemos trocar o dinheiro obtido por habilidades ou capacidades novas, como uma extensão da barra de energia, ou uma durabilidade mais longa para a chama. Mais tarde vamos chegar a um ponto que nos concede uma chama de forma quase permanente, o que é bastante relevante para fazer face à subida de intensidade de Nocturnal quando nos aproximamos do fim.

Já o combate não se encontra ao mesmo nível do desenho do mundo de jogo. Se os quatro “bosses” aqui presentes exigem bastante e são um bom teste aos nossos reflexos e paciência, os inimigos comuns acabam por ser desinspirados e repetitivos. Em alguns momentos onde se encontram vários inimigos ao mesmo tempo nota-se uma perda de fluidez, e talvez mais grave, é fácil perder a noção do que está a acontecer, uma vez que a figura do nosso protagonista acaba por ser difícil de se distinguir das dos inimigos à nossa volta. Isto leva a uma impressão que muitos dos inimigos são pouco mais do que obstáculos sem nexo que devemos evitar se for possível, e que o jogo sairia melhor servido se apresentasse menos inimigos comuns e mais secções de desenho criativo e exigente. Já os “bosses” são um bom exercício para desenvolver uma resposta coordenada, uma vez que é fácil perdermos bastante vida em poucos segundos se formos descuidados.

Por outro lado, se o desenho do percurso é digno de elogio, o ambiente audiovisual merece um reparo. A direção artística – que num jogo com um enredo e conceito destes é como seria de esperar, soturna e lúgubre – merece um grande destaque, tal como as animações e os belíssimos efeitos de luz que o jogo faz com as chamas, mas seria ainda melhor se houvesse uma diferença marcada ao longo do percurso. Uma vez que não existem níveis no entendimento comum da palavra, percebe-se que haja pouca diferenciação entre os locais, mas não ficaria mal ter um pouco de variedade além das secções exteriores. Em relação à componente sonora, Nocturnal apresenta um tratamento mínimo: existem efeitos sonoros compatíveis com as ações, e uma banda sonora extremamente contida que praticamente nunca se destaca. Aliás, fora dos combates, a banda sonora quase não existe salvo raras exceções e tem um papel próximo do zero na criação de ambiente, algo que não se percebe e que merecia mais investimento. E por falar em investimento, Nocturnal é um jogo que se pode concluir sem grandes problemas em aproximadamente duas horas, ainda que a natureza repetitiva da tentativa e erro torne pouco chamativa a ideia de o jogar de uma só vez. Já quem quiser cobrir tudo, encontrar todas as páginas da história e adquirir todas as capacidades pode acrescentar mais uma hora à experiência.

CONCLUSÃO

CONCLUSÃO
7 10 0 1
Sem se tratar de uma obra colossal ou que pretenda redefinir os jogos de plataformas para a década atual, Nocturnal é um desafio com um bom desenho de níveis (em sentido lato) e uma direção artística que merece ser destacada. Ao mesmo tempo, o parco ambiente sonoro e os combates com os inimigos comuns deixam a desejar e podem facilmente levar a pensar que estes aspetos foram alvo de pouca consideração.
Sem se tratar de uma obra colossal ou que pretenda redefinir os jogos de plataformas para a década atual, Nocturnal é um desafio com um bom desenho de níveis (em sentido lato) e uma direção artística que merece ser destacada. Ao mesmo tempo, o parco ambiente sonoro e os combates com os inimigos comuns deixam a desejar e podem facilmente levar a pensar que estes aspetos foram alvo de pouca consideração.
7/10
Total Score

Pontos positivos

  • Desenho de níveis
  • Direção artística
  • Abordagem rápida e sem recurso a vidas

Pontos negativos

  • Combate repetitivo
  • Ambiente sonoro fraco

João Dias

Apreciador de jogos de outras épocas, não diz que não a uma boa obra dos nossos tempos. Diz-se que é por ele que passam os textos antes da publicação, o que significa que é uma espécie de boss final da escrita para os outros membros da equipa.

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