Hades – Análise

Hades é excelente. Merece nota dez. Fim da análise. Posso agora voltar a jogá-lo? Não? Pena. Fora de brincadeira, utilizar adjetivos que sejam nada menos que as palavras mais pomposas é um crime face ao amor e mestria empregues pela Supergiant Games nesta produção. Unido por dois sistemas principais de jogabilidade diferentes em torno das convenções de um “roguelike dungeon crawler”, Hades consegue, vezes sem conta, prender o jogador num ciclo eterno de morte e renascimento com a luz ao fundo do túnel sempre presente.

Um dos dois sistemas principais é o combate. Este elemento, semelhante ao de Bastion (que também veio pela mão da mesma equipa), é uma força absolutamente demoníaca e mutíssimo satisfatória. Sob uma perspetiva isométrica o príncipe Zagreus, filho de Hades, combate pelo inferno com recurso a algumas ações simples: um ataque normal, um especial, uma magia e um desvio rápido que tanto serve para evitar como para enaltecer os ataques. As ações de Zagreus formam a base de uma sobremesa infernal que só melhora com os vários recheios disponíveis. Acreditem: existem muitos recheios.

Para ajudar Zagreus na sua demanda interminável, os deuses do Olimpo (e não só) presenteiam-no com as suas dádivas divinas que fortalecem um dos aspetos sobreditos. Zeus, um dos deuses mais esfomeados da mitologia grega, também conhecido como o grande papá daquela gente toda (e também dos relâmpagos) pode abençoar o ataque mais simples para que este possa distribuir raios por todos os inimigos a cada golpe. Afrodite, associada ao amor e beleza pode imbuir os movimentos de desvio para que possam enfraquecer os inimigos circundantes. Estas dádivas divinais trazem consigo níveis de raridade e tornam-se cada vez mais complexas e interessantes quanto mais longe o príncipe chegar.

Tendo presente que o parágrafo anterior, em conjunto com várias armas disponíveis, por si só já é bastante profundo para um jogo como este, Hades consegue ir mais além sem nunca complicar. Uma espada, lança, escudo, arco, luvas e uma arma de fogo são os sabores à disposição e, apesar de cada arma apresentar vastas diferenças em suas mecânicas, todas podem ser melhoradas de duas maneiras em simultâneo. A cada ida ao inferno existe um objeto que altera as propriedades da arma em punho. Alguns dos exemplos significativos vão desde mudar o ataque simples da espada para uma enxurrada rápida de golpes, ou o especial da arma de fogo para um lança-foguetes (em vez de um lança-granadas). Porém, antes de partida ao inferno e após algum avanço no jogo, Zagreus pode modificar uma arma seguindo o mesmo molde anteriormente referido. Se tudo até aqui já é bastante interessante, então deixo escrito que falta ainda referir mais uns quantos sistemas interessantíssimos que afetam o combate. No entanto, esses ficam para descoberta dos jogadores para evitar que este texto atinja o dobro do tamanho. Mesmo assim, desejo destacar o chamado “God Mode” nas configurações gerais. Uma opção que aumenta as resistências da personagem principal com um bónus fixo de vinte por cento. Mortes sucessivas aumentam esse bónus em pequenos incrementos e proporcionam um desafio mais progressivo, facilitado e convidativo para quem deseje uma experiência mais suave.

O enredo acompanha a fuga de Zagreus por cada um dos quatro biomas que compõem o reino de Hades: Tartarus, Asphodel, Elysium e o Templo de Styx. Cada um deles é riquíssimo no pormenor e são todos distinguíveis uns dos outros. Mais espetacular ainda, é de referir que apesar de todos os pormenores em destaque, nenhum elemento obstrui a leitura do combate, por muito frenético que este seja. Quem jogou Transistor, outro sucesso da Supergiant Games, com certeza irá notar as semelhanças na forma como o ambiente conta o seu próprio enredo. Como se não bastasse, a banda sonora é também ela excelente. Darren Korb, compositor da Supergiant Games, colocou aqui uma mistura deliciosa que funciona de forma magistral. Seja a desbravar terreno ou a meter conversa com as personagens, tudo o que é sonoro em Hades é indiscutivelmente o seu melhor trabalho.

Virando o holofote para a fuga do príncipe Zagreus, e em estilo próprio dos jogos “roguelike”, o avanço é pautado pela conquista de várias salas seguidas até atingir um ponto antes de enfrentar um inimigo mais forte. Cada divisão está separada por uma porta que informa visualmente qual a recompensa a adquirir após a conclusão. Quando são apresentadas várias alternativas a indecisão é quase palpável: é preferível mais uma dádiva de Hermes, ou se calhar faz falta um pouco mais de dinheiro? Moeda de troca essa que serve para negociar com Caronte, o barqueiro do inferno que proporciona ao príncipe deste submundo uma melhoria ou consumível mais apetecível. Em conjunto com todos os outros sistemas em jogo, Hades consegue assim distinguir-se da competição pois nunca duas tentativas de chegar ao fim são exatamente iguais.

O segundo sistema principal aqui presente é centrado no enredo, o que é surpreendente para um “roguelike”. Neste aspeto é claro como a luz do dia que a Supergiant Games inspirou-se bastante no seu outro jogo mais recente, Pyre. Como seria então de esperar, tudo em Hades foi surpreendentemente bem escrito e construído, onde cada divindade e personagem que Zagreus encontra exibe carisma e magnetismo em cada pixel. A quantidade de diálogo presente é igualmente impressionante: cada vez que Zagreus morre, por exemplo, volta à casa de Hades onde coabitam várias personagens, e em todas as vezes há sempre algo novo para ouvir ou ler, frequentemente ligado à forma como o príncipe morreu ou acerca dos inimigos que encontrou.

Não obstante, o mesmo sistema funciona também para mitigar uma das fraquezas do género: a pós-morte. Noutros “roguelike”, quando a personagem principal morre e volta ao início, tudo é desprovido de vida e atividade. Em Hades perder a hipótese de chegar até ao fim por via de um dos inimigos não tem de ser um castigo. Existem diálogos por explorar e até melhorias por adquirir que produzem mudanças de forma passiva em Zagreus e na casa onde todos coabitam. O interesse e tempo do jogador não está centrado apenas no combate mas também no desenrolar do enredo, que constitui a grande intriga entre o príncipe do submundo e o seu pai. Zagreus adquire objetos durante a sua travessia pelo inferno para presentear os habitantes da casa do seu pai, de forma não muito diferente do que se encontraria num “dating sim”. Construir laços ou relações com Nyx, Dusa e Hypnos são apenas algumas das hipóteses para desenterrar mais elementos interessantes do enredo, peças de “puzzle” para a história em destaque. Existe um respeito, raramente encontrado, pelo tempo e dedicação prestados pelo jogador, este talvez a chave-mestra que explica como um jogo de um género tão divisivo nos consegue agarrar a atenção por tanto tempo.

Fora estes dois sistemas referidos, é importante realçar que o jogo não é uma novidade propriamente dita. Esteve desde 2018 na Epic Games Store em “early access”, encontrando-se agora finalmente disponível para todas as consolas. Este trabalho adicional não só aprimorou o desenvolvimento para uma versão final competente e completa, mas também para a excelente conversão na Nintendo Switch. Seja em 720p no ecrã da consola ou 1080p num ecrã de televisão, Hades tenta sempre atingir os 60 fotogramas por segundo. Muito raramente, durante um ou outro momento mais caótico da ação, esse número baixa mas sem nunca comprometer a jogabilidade. Esta é talvez a única falha, num pacote que é por si só uma excelente proposta.

CONCLUSÃO

CONCLUSÃO
Mesmo com tudo o que foi dito, existia muito mais por onde bater. Hades é o melhor jogo com o selo da Supergiant Games; uma amálgama viciante dos seus sucessos passados e um forte candidato a jogo do ano. É um produto que demonstra a evolução de um estúdio que já está no ramo há uns bons anos, e a forma como Hades complementa e completa uma fórmula já estabelecida, como é o caso dos "roguelike", é de uma mestria sem igual nas mãos de quem já tem três jogos excelentes debaixo do braço. Recomenda-se com pompa e circunstância, sem a mais pequena dúvida.
Mesmo com tudo o que foi dito, existia muito mais por onde bater. Hades é o melhor jogo com o selo da Supergiant Games; uma amálgama viciante dos seus sucessos passados e um forte candidato a jogo do ano. É um produto que demonstra a evolução de um estúdio que já está no ramo há uns bons anos, e a forma como Hades complementa e completa uma fórmula já estabelecida, como é o caso dos "roguelike", é de uma mestria sem igual nas mãos de quem já tem três jogos excelentes debaixo do braço. Recomenda-se com pompa e circunstância, sem a mais pequena dúvida.
10/10
Pontuação Final

Pontos positivos

  • Combate multifacetado e profundo
  • Banda sonora excelente
  • Visão artística detalhada
  • Mundo repleto de personagens interessantes

Pontos negativos

  • Quedas no desempenho em (raras) ocasiões caóticas

Ulisses Domingues

Analisar um videojogo é como uma experiência gastronómica: pode correr muito bem, muito mal ou não correr de todo. Pelo menos é o que este membro da equipa acredita. No entanto, nunca deixará que a sua fome altere os critérios de análise. Pelo menos não muito.