Kena: Bridge of Spirits – Análise
Depois de uma estreia bem recebida em 2021, Kena: Bridge of Spirits do estúdio californiano Ember Lab chegou recentemente à Nintendo Switch 2. Trata-se de um jogo de aventura na terceira pessoa, bastante influenciado pela mitologia balinesa a nível dos temas e (sobretudo) da banda sonora, e que embora não tente reinventar as convenções do género, cumpre o seu papel com competência e com um ambiente audiovisual belíssimo, ainda que o jogo tenha algumas arestas por limar.

Kena, a nossa protagonista, é uma guia espiritual que ajuda os espíritos de pessoas que já partiram a encontrar a paz. A jornada de Kena implica viajar por aldeias, florestas e montanhas, e limpar a corrupção deixada por espíritos perturbados para assim ajudar os vivos a poderem voltar a viver tranquilamente. O enredo é relativamente simples, mas é bastante cinematográfico, ou não fosse a Ember Lab um nome com experiências passadas no mundo dos filmes de animação (onde se inclui uma curta-metragem baseada em Majora’s Mask) antes de se ter dedicado aos videojogos. Algumas das histórias com que nos deparamos encontram-se muito bem escritas, e poderiam ser facilmente adaptadas ao grande ecrã.

A aventura é algo linear, o que pode desiludir quem por breves instantes pensar que está a jogar algo semelhante a um Zelda recente. O nosso avanço é guiado pela história, e temos de cumprir um objetivo antes de avançarmos para o próximo. Quase de forma reflexa assumimos que todos os jogos de aventuras são inteiramente livres e podem ser jogados de forma multidirecional depois dos sucessos estrondosos que foram Breath of the Wild e Tears of the Kingdom, embora Bridge of Spirits não se apresente dessa forma. Isto diz bastante sobre o peso daqueles jogos, o que não significa que não haja espaço para aventuras como Bridge of Spirits se afirmarem pelos seus méritos, mesmo que também aqui existam influências de Zelda mas estas encontram-se mais a nível da resolução de problemas e descoberta de novos caminhos do que na dimensão do mundo e exploração.

Cada local que visitamos precisa da ajuda de Kena para limpar a corrupção provocada pelos espíritos. Vamos fazê-lo através do combate e das capacidades espirituais da protagonista, onde se incluem os Rot, pequenas criaturas simpáticas que descobrimos pelo caminho escondidas em sítios óbvios e menos óbvios. Os Rot são fundamentais nas ações de Kena, é com a ajuda daquelas criaturazinhas que vamos mover objetos à distância para ativar mecanismos e pedestais, por exemplo, recuperar vida durante os combates mais difíceis (dentro de certos limites determinados pelo nível de dificuldade) e, muito importante, purificar as maiores fontes de corrupção em cada local. Além de ajudantes cruciais durante a aventura, os Rot também servem de pequenas mascotes, e fora dos momentos mais exigentes é possível brincar com eles e personalizá-los com chapéus de cores diferentes que compramos nos locais que purificámos. À medida que encontramos mais Rot, podemos melhorar as suas capacidades e tornar Kena numa personagem progressivamente mais poderosa ao longo do jogo.

Bridge of Spirits tem um aspeto belíssimo. Os cenários são desenhados de forma muito luxuriante, e refletem muito bem as influências da cultura da ilha de Bali a nível das paisagens naturais, aldeias e objetos. O uso da cor e da luz é fantástico, quer seja nos sítios mais calmos, quer nos locais mais escuros. A banda sonora é uma maravilha, interpretada pelo grupo balinês Gamelan Çudamani, e inclui um trabalho de instrumentação fantástico que acompanha o desenrolar do jogo e que se altera conforme o ambiente muda de mais calmo para mais tenso. Por outro lado, se a direção artística e o aspeto global dos cenários são um deleite para os olhos, o desempenho do jogo merece alguns reparos. Embora na maioria dos momentos a deslocação e as ações de Kena se desenrolem sem problemas, há situações em que é possível ficarmos presos durante um momento e onde a câmara se torna agitada. Ao mudarmos a orientação da câmara de forma mais rápida apercebemo-nos que algumas partes do cenário não carregam imediatamente e notam-se espaços em branco durante um curtíssimo instante. Encontram-se também locais a que Kena não pode aceder o que é normal, mas isto não é imediatamente óbvio para o jogador. Todos estes elementos por si sós não representam obstáculos de maior à experiência, mas Bridge of Spirits teria a ganhar com a sua correção.

Quanto à jogabilidade propriamente dita, pode-se dizer que Bridge of Spirits apresenta duas dimensões distintas do ponto de vista do interesse que suscitam no jogador. Explorar o enredo e descobrir sítios e personagens novas, com as suas revelações e histórias é muito interessante, e notam-se as qualidades da Ember Lab no que diz respeito à criação de uma aventura guiada pela história. Já o combate torna-se repetitivo e desinteressante após pouco tempo. Os inimigos, que estão lá por um motivo e não é isso que está em causa uma vez que têm o seu lugar na história, são bastante semelhantes e têm pouca personalidade, enquanto as nossas ações para os vencermos tornam-se pouco mais do que uma tarefa obrigatória que realizamos sem grande entusiasmo, motivados pelo interesse em ver o que acontece a seguir, sobretudo quando adquirimos melhorias mais capazes para Kena. Isto torna-se mais pronunciado nos combates com os “bosses”.
Temos então assim uma componente audiovisual lindíssima embora com alguns problemas no desempenho, um enredo muito interessante e que nos motiva para avançar ao longo do mapa e descobrir mais elementos e itens, uma boa integração dos Rot e da forma como os usamos para resolver problemas, e um combate pouco inspirado que funciona mais como uma obrigação do que algo que nos deixe entusiasmados para atacar os inimigos. Por último, no que diz respeito à acessibilidade, o jogo apresenta bastantes opções de personalização no que diz respeito aos controlos e câmara, bem como quatro níveis de dificuldade que incidem sobretudo na agressividade dos inimigos e recuperação das nossas capacidades durante o combate. É também importante referir que embora as opções incluam a tradução dos textos para português europeu e português do Brasil, o texto em português europeu parece ter sido esquecido e o jogo apresenta o texto em português do Brasil. Isto não perturba a experiência de forma grave, uma vez que os textos não são excessivamente complexos e a linguagem usada é acessível, mas mostra falta de cuidado na forma como esta versão foi terminada.
CONCLUSÃO
CONCLUSÃOPontos positivos
- Direção artística belíssima e banda sonora magnífica
- Enredo muito interessante e motivante
- Bom sentido de exploração e integração dos Rot
- Bastantes itens para descobrir
Pontos negativos
- Combate pouco inspirado
- Algumas falhas no desempenho visual
- Tradução para português europeu esquecida

Apreciador de jogos de outras épocas, não diz que não a uma boa obra dos nossos tempos. Diz-se que é por ele que passam os textos antes da publicação, o que significa que é uma espécie de boss final da escrita para os outros membros da equipa.

