AnálisesSwitch 2

Scott Pilgrim EX – Análise

Há jogos que vivem tanto da jogabilidade como da identidade, Scott Pilgrim EX encaixa perfeitamente nesse grupo. Entre referências constantes à cultura pop, humor irreverente e uma estética que continua a destacar-se hoje em dia, esta nova entrada recupera o espírito dos “beat’em ups” clássicos e adapta-o a uma abordagem mais moderna, sem nunca perder o seu ADN. Depois do estatuto quase clássico alcançado por Scott Pilgrim vs. The World: The Game, esta nova entrada chega com expectativas elevadas. A proposta não passa por reinventar o género, mas sim por refinar uma fórmula já bem estabelecida, introduzindo melhorias no combate, maior variedade de personagens e uma progressão mais consistente. Na Nintendo Switch 2, isso traduz-se numa experiência que procura equilibrar nostalgia e fluidez, mantendo o foco na ação cooperativa e no ritmo constante que define o género.

A premissa mantém-se fiel ao espírito da série. Scott e o seu grupo de aliados voltam a enfrentar ameaças absurdas: ex-namorados com poderes exagerados e situações que misturam romance, humor e referências constantes à cultura pop. O enredo continua a ser mais um pano de fundo do que um elemento central, servindo sobretudo para justificar a progressão entre níveis e encontros. Ainda assim, o tom ligeiro e irreverente ajuda a manter a experiência coesa, com diálogos rápidos e momentos caricatos que encaixam bem no ritmo do jogo. Ao nível de estrutura Scott Pilgrim EX opta por uma abordagem significativamente diferente, e é precisamente aí que surgem algumas reticências. Em vez da progressão linear típica de um “beat ’em up” clássico, temos agora um mundo fragmentado, quase como um mapa semi-aberto onde diferentes “realidades” se cruzam e obrigam o jogador a explorar, regressar a zonas anteriores e cumprir objetivos específicos para avançar.

Esta componente de exploração traz alguma variedade estrutural, com cenários urbanos, áreas mais estilizadas e pequenos segmentos com obstáculos ou alterações de ritmo, mas também introduz uma dinâmica menos imediata. A necessidade de andar para a frente e para trás, muitas vezes sem grande orientação, pode causar uma primeira impressão algo estranha, sobretudo para quem esperava uma experiência mais direta e mais “arcade”. Com o tempo essa sensação tende a diluir-se. À medida que os mapas se tornam reconhecíveis e o jogador se adapta à lógica do jogo, o fluxo começa a fazer mais sentido. Ainda assim, continuamos a ter de regressar a pontos anteriores, especialmente para completar missões e eventos secundários, o que acaba por acentuar alguma repetição estrutural típica do género.

No final, o que sustenta a experiência é o que nunca falha: o combate. Há sempre inimigos suficientes para manter o ritmo e o jogo não facilita, exige investimento em equipamento, gestão de recursos e uso frequente de itens como comida para recuperar vida, algo que aqui assume um papel mais relevante do que seria de esperar. A base da jogabilidade é a habitual: limpar ecrãs de inimigos e enfrentar “bosses” com padrões próprios. No entanto Scott Pilgrim EX introduz algumas melhorias que tornam o combate mais fluido. O jogo dá melhores indicadores sobre os nossos ataques, os movimentos especiais são mais fáceis de encadear e existe uma maior variedade de opções defensivas, incluindo desvios mais consistentes e contra-ataques contextuais. Cada personagem apresenta diferenças reais no estilo de combate. Scott continua a ser equilibrado, ideal para quem procura uma abordagem generalista, enquanto personagens como Ramona ou Kim oferecem estilos mais especializados, seja através de maior alcance, ataques mais rápidos ou habilidades específicas que alteram a forma de abordar os encontros. Esta variedade incentiva a experimentação, sobretudo em modo cooperativo.

A componente RPG regressa com mais profundidade. À medida que avançamos, ganhamos experiência, desbloqueamos novos golpes e melhoramos os nossos atributos. Também encontramos lojas ao longo dos níveis onde podemos comprar itens que aumentam os indicadores ou trazem vantagens temporárias. Este sistema de progressão ajuda a dar uma sensação de evolução constante, sem nunca complicar demasiado a estrutura do jogo. O modo cooperativo continua a ser a alma da experiência. Jogar a solo é perfeitamente viável mas é em multijogador, local ou online, que Scott Pilgrim EX mais se destaca. A interação entre jogadores, a possibilidade de coordenar ataques e o caos controlado que surge no ecrã tornam cada sessão mais dinâmica.

Visualmente Scott Pilgrim EX mantém a aposta numa direção artística baseada em “pixel art” muito trabalhada e extremamente expressiva. As animações são fluidas, os “sprites” estão cheios de personalidade e há uma atenção ao pormenor em cada cenário. A direção artística continua a ser um dos maiores trunfos do jogo, e capta perfeitamente o estilo visual das BDs. Os efeitos visuais durante o combate são mais elaborados do que no jogo anterior, sem comprometer a clareza da ação. O desempenho do jogo é bastante competente. Num ecrã de televisão tenta atingir uma fluidez de 60 fotogramas por segundo, e mantém-se fluido mesmo em situações com muitos inimigos e efeitos no ecrã. No ecrã da Switch 2 a experiência mantém-se igualmente estável, com uma imagem nítida e sem perdas significativas de desempenho. A banda sonora segue a mesma linha, com uma forte influência de rock e “chiptune”, criando um ritmo constante que acompanha bem o combate. As faixas são enérgicas e uma verdadeira assinatura da identidade do jogo, embora nem todas sejam igualmente memoráveis.

CONCLUSÃO

CONCLUSÃO
8 10 0 1
Scott Pilgrim EX apresenta-se como um jogo que arrisca mais na estrutura do que propriamente na base da jogabilidade. A aposta num mundo fragmentado e com maior componente de exploração quebra a progressão direta do original e pode causar alguma estranheza inicial. Ainda assim, o essencial encontra-se intacto. O combate continua divertido, desafiante e suficientemente variado para sustentar a experiência, enquanto a direção artística e o tom irreverente continuam a dar identidade ao conjunto. Uma proposta interessante que apesar das mudanças, não perde o que torna Scott Pilgrim especial.
Scott Pilgrim EX apresenta-se como um jogo que arrisca mais na estrutura do que propriamente na base da jogabilidade. A aposta num mundo fragmentado e com maior componente de exploração quebra a progressão direta do original e pode causar alguma estranheza inicial. Ainda assim, o essencial encontra-se intacto. O combate continua divertido, desafiante e suficientemente variado para sustentar a experiência, enquanto a direção artística e o tom irreverente continuam a dar identidade ao conjunto. Uma proposta interessante que apesar das mudanças, não perde o que torna Scott Pilgrim especial.
8/10
Total Score

Pontos positivos

  • Combate fluido e acessível
  • Grande foco no modo cooperativo
  • "Pixel art" trabalhada e cheia de personalidade

Pontos negativos

  • Alguma sensação de repetição
  • Estrutura fragmentada pode causar estranheza

Nuno Nêveda

Calorias, nutrientes e Nintendo. Três palavras que definem o maior fã de F-Zero cá do sítio. Adepto de hábitos alimentares saudáveis, quando não anda atrás de uma balança, costuma estar ocupado com as notícias mais prementes e as análises mais exigentes.

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