City Hunter – Análise
O nome City Hunter não é novidade para quem acompanha o universo da banda desenhada e animação japonesas. A criação de Tsukasa Hojo viu a luz do dia em 1985, e tornou-se uma das grandes referências no que diz respeito a histórias de ação, detetives e criminosos que encarnam uma versão moderna do policial “noir”, com direito a dezenas de livros, uma série de animação, uma série de ação ao vivo e longas metragens sobre a personagem de Ryo Saeba, o “City Hunter” que dá o nome à série. Estranhamente para algo com tanto sucesso, City Hunter recebeu apenas uma adaptação própria ao mundo dos videojogos, que estreou no PC Engine (conhecido como TurboGrafx-16 no ocidente) em 1990 pela mão da Sunsoft, mas apenas com lançamento no Japão e sem tradução para outros mercados.

Volvidos trinta e seis anos, a Sunsoft em conjunto com a Red Art Games e a Cloud Leopard Entertainment fizeram um “remaster” do jogo original com algumas características novas, traduziram os textos para uma série de idiomas (onde não se encontra o português) e colocaram este novo City Hunter nos formatos contemporâneos. Trata-se de um jogo de ação em 2D onde o nosso protagonista vai resolver quatro missões em que disparamos contra os vilões, encontramos algumas personagens que nos ajudam e vencemos um “boss” no final. O jogo encontra-se muito próximo da experiência original, as mudanças dizem respeito à conveniência e qualidade da experiência, onde além do habitual filtro CRT e proporção do ecrã, também temos a possibilidade de salvaguardar o jogo em qualquer momento (o original só utilizava “passwords”) e de puxar os acontecimentos para trás quando a coisa corre mal.

A ação é do mais simples possível: andar, saltar, agachar, subir e descer escadas, e disparar. Não há movimentos complexos, técnicas elaboradas ou combates polivalentes – aliás, não existe combate corpo-a-corpo, contra os inimigos só usamos armas de fogo. Vamos receber armas melhores ao longo do jogo mas sem limite de munições, o que dá um ar um pouco caricato à ação, uma vez que começamos com uma pistola e na última missão já temos um lançador de mísseis portátil sem limite de projéteis. Os inimigos também são simples, a maioria limita-se a andar de um lado para o outro e a disparar, enquanto alguns saltam e movem-se com mais desenvoltura. O habitual para um jogo de ação que saiu em 1990. Os quatro níveis também são representativos da época, os cenários são relativamente simples e repetem os mesmos padrões, e embora sejam curtos (é possível resolver cada missão em 10-15 minutos) tornam-se repetitivos, e uma vez que não temos acesso a um mapa é fácil perder a noção de onde nos encontramos ou onde devemos ir. O jogo é curto mais variedade nos cenários seria bem-vinda. Outra característica comum do seu tempo é o regresso dos inimigos já vencidos quando entramos e saímos de uma sala, e nos momentos menos convenientes. É comum voltarmos ao corredor e descobrir que temos dois ou três inimigos em cima do nosso protagonista. Felizmente a barra de vida é generosa, e em cada missão encontram-se pontos onde a podemos restaurar na totalidade – isto acontece nas salas onde se encontra uma enfermeira ou, num exemplo representativo da série, uma mulher jovem em trajes reduzidos que prontamente ordena a Ryo que se ponha a andar.

As missões encaixam no espírito da série. Desde um laboratório onde se produzem armas biológicas a um navio de cruzeiro usado como fachada para tráfico de droga e de armas, nada destoa do que se espera de um jogo de ação baseado em City Hunter. Os diálogos também não se afastam desta tipologia e apesar de serem curtos, são úteis nas pistas que nos dão, ainda que estejam muito aquém do material original. Quem espera alguma liberdade para fazer o seu próprio caminho vai ficar desiludido. Apesar de podermos escolher a ordem com que cumprimos as três primeiras missões, seguem todas um caminho linear – obtemos uma chave de uma personagem, outra personagem dá-nos uma identificação para acedermos a um local secreto, e depois de cumpridas estas etapas podemos enfrentar o “boss” de cada nível. Os “bosses” são pouco exigentes, basta um número de tiros e evitar os seus disparos e estamos a caminho da missão seguinte. Para um jogo baseado numa série de banda desenhada tão rica, o final é muito desapontante e deixa uma sensação de que foi feito à pressa, nem sequer conta com um “boss” final propriamente dito.

Esta nova versão de City Hunter permite-nos jogar sob três formas diferentes. Ao iniciar um jogo novo escolhemos se queremos a experiência original, se preferimos a versão avançada, ou uma versão mais difícil onde os inimigos têm maior poder de ataque, são mais resistentes aos nossos disparos e há menos oportunidades de recuperar vida. A versão mais difícil representa sem dúvida um desafio acrescido, mas acaba por esbarrar num lugar-comum típico da sua época de jogos de ação que impunham dificuldade aos jogadores como forma de disfarçar um desenho de níveis pouco criativo. Embora o jogo prometa que a versão avançada exibe melhorias em relação à original, a verdade é que estas são muito discretas e raramente se nota uma diferença assinalável. Além da ação propriamente dita, este City Hunter inclui alguns extras interessantes, como imagens do manual de instruções original (em japonês), ilustrações da banda desenhada, bem como a banda sonora do jogo, onde se destaca a inclusão de faixa Get Wild, que passa na série de animação.
City Hunter como saiu no PC Engine em 1990 é visto por muitos fãs da série como um clássico que nunca teve direito à internacionalização. Essa lacuna foi finalmente preenchida. Se esta versão tem elementos interessantes para quem gosta da série (destaque para as duas traduções em francês, uma com o título Nicky Larson que segue os nomes usados na primeira tradução francesa da série, outra que segue os nomes do original japonês), a verdade é que lhe falta muita coisa para cativar mais jogadores. A começar pelo preço de venda: €24,99 na eShop da Nintendo, que é demasiado para um jogo que, embora tenha os seus encantos, é uma experiência demasiado curta e parca para pedir semelhante preço. Seria, isso sim, um preço mais indicado para um “remake” ambicioso. Este City Hunter tem o seu mérito – quantos mais jogos exclusivos de um único mercado deveriam ter sido disponibilizados noutras partes do mundo? – e os seus pontos positivos, mas a experiência que se obtém por aquele preço de venda sabe a pouco, ainda que toque em alguns pontos certos.
CONCLUSÃO
CONCLUSÃOPontos positivos
- Traz finalmente um clássico ao mundo inteiro
- Banda sonora muito boa
- Ação simples mas fluida
Pontos negativos
- Preço de venda muito alto
- Muito repetitivo em alguns pontos
- Precisa de mais ambição

Apreciador de jogos de outras épocas, não diz que não a uma boa obra dos nossos tempos. Diz-se que é por ele que passam os textos antes da publicação, o que significa que é uma espécie de boss final da escrita para os outros membros da equipa.

