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Dragon Quest VII Reimagined – Análise

Há regressos que vivem da nostalgia, e outros que precisam de justificar a sua existência perante um público que já conhece o original de trás para a frente. Dragon Quest VII Reimagined enquadra-se nesse segundo grupo. Mais de duas décadas depois da estreia original na PlayStation e cerca de treze anos após o “remake” para Nintendo 3DS, Dragon Quest VII regressa mais uma vez com esta nova versão, que tenta encontrar o equilíbrio entre preservar essa herança e torná-la mais apelativa a uma geração habituada a ritmos mais rápidos e sistemas mais acessíveis.

A história continua a seguir um protagonista silencioso que vive em Estard, uma pequena ilha aparentemente isolada do resto do mundo. Convencido de que existe algo além daquele território limitado, o protagonista explora ruínas antigas ao lado do impulsivo Príncipe Kiefer e da pragmática Maribel. A descoberta de misteriosos fragmentos de pedra leva o trio a ativar um santuário ancestral que os manda para o passado. A partir daí, Dragon Quest VII assume uma estrutura quase antológica em que cada viagem temporal leva o grupo a uma nova ilha onde enfrentam um problema local, desde aldeias dominadas por máquinas a comunidades inteiras transformadas em animais, e resolvem pequenos conflitos o que permite restaurar aquelas regiões no tempo presente. Esta abordagem episódica sempre foi uma das marcas do jogo. Ao contrário de RPGs modernos com estruturas narrativas muito centralizadas, Dragon Quest VII constrói o seu mundo através de pequenas histórias independentes que gradualmente convergem numa trama maior. Nem todos os episódios têm o mesmo peso dramático, mas o tom acolhedor e otimista da série mantém-se constante. Mesmo quando aborda temas mais sombrios, o jogo mantém aquela sensação clássica de aventura ligeira e calorosa que sempre definiu a série Dragon Quest.

A exploração foi alvo várias melhorias de qualidade de vida. Tal como na versão portátil, os inimigos aparecem diretamente no mapa em vez de surgirem em encontros aleatórios. Isto significa que o jogador pode evitar batalhas facilmente se preferir explorar um espaço rapidamente. Quando os inimigos são muito mais fracos chegam até a fugir, e um simples golpe no mapa pode trazer recompensas sem sequer entrar no ecrã de combate. Combinado com funcionalidades como a viagem rápida e habilidades como Nose for Treasure, que ajuda a localizar itens escondidos, explorar cada ilha tornou-se muito mais agradável para quem gosta de completar tudo. No entanto, a linearidade sobressai bastante, e o jogo está constantemente a dar indicações para onde ir, o que facilita a progressão mas retira alguma da magia à exploração. Por outro lado, Dragon Quest VII na PlayStation apresentava uma progressão muito lenta, e esta nova versão segue a base do “remake” para Nintendo 3DS, que já tinha resolvido parte desse problema ao cortar diálogos redundantes e reduzir o regresso a locais já visitados. O resultado é uma aventura bastante mais fluida que mantém a identidade do jogo mas elimina boa parte da gordura estrutural que tornava o arranque tão lento.

O sistema de combate continua fiel à tradição da série. As batalhas são por turnos e mantêm a simplicidade estratégica característica da série. Comparado com sistemas mais modernos pode parecer simplista, mas continua a funcionar graças à variedade de habilidades, magias e opções táticas disponíveis. Quem preferir automatizar combates mais simples pode recorrer aos comandos de combate automático, que gerem confrontos comuns de forma bastante competente. Uma das novidades introduzidas nesta reimaginação é o sistema Worked Up. Durante a batalha, as personagens podem entrar num estado especial depois de causar ou sofrer danos suficientes. Esse estado concede efeitos temporários ligados à vocação da personagem, que incluem aumentar drasticamente o poder de ataque ou bloquear os ataques adversários durante um turno. Como a ativação é maioritariamente aleatória, funciona mais como um fator surpresa que pode virar uma batalha complicada em vez de ser um recurso fácil de explorar.

O sistema de vocações continua a ser o coração da progressão. Cada personagem pode assumir classes diferentes, desde guerreiro e mago a vocações mais avançadas, que evoluem independentemente do nível base. Dominar certas classes desbloqueia outras mais poderosas, criando uma progressão semelhante aos sistemas clássicos dos JRPGs. Nesta versão, as vocações recebem uma atualização interessante com a introdução da mecânica Moonlighting. Agora é possível equipar uma segunda vocação em simultâneo, o que altera as estatísticas e as habilidades disponíveis. Não chega à complexidade vista em jogos como Bravely Default, mas abre espaço para composições de equipa bem mais criativas. Mesmo com uma redução em relação ao original, a longevidade é aceitável e ultrapassa as cinquenta horas para completar a história principal. No entanto, a maior falha é o nível de dificuldade. É bastante acessível, mesmo na dificuldade padrão. O jogo raramente exige um grande investimento para melhorar as nossas personagens, e a maioria das batalhas pode ser vencida com uma estratégia simplista e um uso inteligente das vocações. Alguns “bosses” exigem preparação, mas no geral Dragon Quest VII Reimagined está longe de ser um JRPG particularmente punitivo.

Do ponto de vista visual o jogo apresenta uma renovação que dá um novo fôlego à aventura e acaba por ser um dos maiores trunfos desta reinterpretação. Em vez de seguir a tendência recente dos “remakes” em estilo HD-2D, a Square Enix opta por uma abordagem tridimensional mais estilizada que combina modelos com bastante pormenor e o traço inconfundível de Akira Toriyama. O resultado é uma direção artística bastante distinta, onde cenários e personagens parecem pequenas maquetes animadas, cheias de cor e personalidade. Esta escolha estética funciona particularmente bem na Nintendo Switch 2, onde a maior resolução e a fluidez da imagem ajudam a destacar os pormenores dos ambientes e das animações, dando ao mundo do jogo uma presença muito mais viva do que nas versões anteriores. A banda sonora também recebeu um tratamento renovado. As composições clássicas foram regravadas com novos arranjos orquestrais que mantêm o espírito do original enquanto acrescentam maior riqueza sonora. Os temas continuam a transmitir aquele equilíbrio típico da série entre uma aventura ligeira e momentos mais solenes, reforçando o ambiente acolhedor que define a série Dragon Quest.

CONCLUSÃO

CONCLUSÃO
8 10 0 1
Dragon Quest VII Reimagined é um olhar contemporâneo que se mantém fiel às raízes da série. É uma aventura empolgante, com visuais encantadores e uma identidade única. Embora com um ritmo melhor equilibrado, peca na simplificação de mecânicas e estrutura, oferecendo uma dificuldade acessível. É uma aventura longa e consistente, mas não necessariamente desafiante.
Dragon Quest VII Reimagined é um olhar contemporâneo que se mantém fiel às raízes da série. É uma aventura empolgante, com visuais encantadores e uma identidade única. Embora com um ritmo melhor equilibrado, peca na simplificação de mecânicas e estrutura, oferecendo uma dificuldade acessível. É uma aventura longa e consistente, mas não necessariamente desafiante.
8/10
Total Score

Pontos positvos

  • Visuais encantadores
  • Flexibilidade do sistema de vocações
  • Melhor ritmo comparado com versões anteriores

Pontos negativos

  • Ritmo inicial ainda lento
  • Dificuldade demasiado baixa

Nuno Nêveda

Calorias, nutrientes e Nintendo. Três palavras que definem o maior fã de F-Zero cá do sítio. Adepto de hábitos alimentares saudáveis, quando não anda atrás de uma balança, costuma estar ocupado com as notícias mais prementes e as análises mais exigentes.

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