AnálisesSwitch 2

Shuten Order – Nintendo Switch 2 Edition – Análise

Shuten Order chega à Nintendo Switch 2 como uma proposta invulgar no género dos “visual novels”, ambiciosa na forma como junta mistério, drama sobrenatural e experiências de jogabilidade distintas sob a mesma trama. A premissa inicial cativa-nos de imediato: durante um festival que celebra a fundação do reino, o líder da ordem Shuten é assassinado, lançando a nação no caos. O jogador assume o papel de uma jovem recruta que, num volte-face sobrenatural, é ressuscitada por um poder divino para investigar não só este homicídio, mas também a sua própria morte inesperada. Esta abordagem dá o tom a um enredo que promete intriga e tensão, puxando-nos para um mundo onde seitas, ministérios poderosos, e forças divinas se entrelaçam numa contagem decrescente para o fim da humanidade. É um ponto de partida forte e diferente do habitual, e Shuten Order não tem medo de arriscar na forma como conta esta história.

O enredo encontra-se estruturado de forma pouco convencional, dividido em cinco capítulos principais (cada um centrado num dos ministros da ordem Shuten) que podem ser jogados em qualquer ordem. Cada capítulo apresenta um suspeito diferente, bem como um tom e género próprios. Há uma investigação criminal à moda de Danganronpa, um jogo mortífero de “puzzles” de sobrevivência, uma sequência estilo “thriller” com perspetivas múltiplas, um episódio que mais parece uma comédia romântica estudantil, e até uma breve incursão pelo terror furtivo em tempo real. Esta variedade temática confere a Shuten Order um ritmo peculiar: ora estamos a interrogar suspeitos e a ligar pistas num clássico mistério de detetives, ora passamos para desafios de sala de fuga ou simulação de encontros amorosos. Se esta variedade mantém a experiência fresca e imprevisível, e traz sempre algo novo a cada capítulo, é também aqui que reside um dos seus problemas: ao tentar ser “pau para toda a obra”, Shuten Order acaba por não aprofundar nenhuma das suas facetas. Cada segmento cativa-nos o suficiente para querermos mais, mas raramente dura tempo suficiente para nos satisfazer em pleno, e quando parece que a jogabilidade ou a história estavam a ganhar dinamismo… termina.

Apesar da estrutura fragmentada, o mistério central do enredo é intrigante. Há reviravoltas bem conseguidas e temas surpreendentemente densos que vamos abordar, desde reflexões sobre fé e mortalidade até críticas subtis à autoridade. A protagonista, Rei, e as figuras que encontra (de ministros enigmáticos a aliados improváveis, incluindo dois anjos peculiares que servem de guias) têm os seus momentos de destaque. O Ministério da Ciência, por exemplo, sobressai graças a personagens cativantes e decisões que determinam quem sobrevive até perto do fim, o que confere uma urgência genuína a esse momento. Há também capítulos menos conseguidos, o do Ministério da Saúde, por exemplo, promete um “death game” à lá Zero Escape, mas acaba por ser demasiado linear e pouco interativo, limitando-se a “puzzles” simples intercalados por sequências cinemáticas e sem a tensão que o conceito pedia. Esta desnível na qualidade entre capítulos faz com que o enredo seja algo irregular, alguns momentos prendem-nos a atenção, enquanto outros estendem certos conceitos além do necessário ou recorrem a reviravoltas algo forçadas. Além disso, a liberdade de escolha na ordem dos capítulos traz um percalço narrativo. Dependendo do percurso escolhido, é possível desvendar um grande segredo numa fase precoce, para em seguida passarmos por capítulos onde as personagens ainda estão a insinuar algo que já sabemos. Esta falta de coesão leva a uma repetição das pistas e diminui o peso de algumas revelações, sobretudo na reta final quando já antevemos a conclusão, e apenas esperamos que o jogo nos deixe lá chegar.

Do lado da jogabilidade, é importante reiterar que Shuten Order é essencialmente um “visual novel”. A maior parte do tempo será passada a ler diálogos, a fazer escolhas ocasionais, e a apreciar o ambiente audiovisual que acompanha a história. No entanto, a divisão em capítulos temáticos traz mecânicas específicas a cada um deles. No primeiro episódio investigamos cenas de crime e participamos em debates dedutivos que lembram Ace Attorney ou Danganronpa, noutro resolvemos enigmas para fugir de armadilhas mortais, há também um capítulo de estratégia social onde gerimos o tempo a dialogar com outras personagens para ganhar a sua confiança, e até uma secção que nos coloca numa perspetiva furtiva. Os maiores fãs de cada género aqui retratado vão notar que nenhum destes segmentos iguala os jogos que os inspiram. Os “puzzles” são relativamente simplistas, as sequências de ação furtiva não têm grande perigo real, e as partes de romance interativo acabam por tornar-se repetitivas, já que o jogo é bastante permissivo e guiado nesses momentos. Shuten Order diverte ao brindar-nos com um pouco de tudo, mas não aprofunda o suficiente para deixar marca em nenhum desses aspetos.

Visualmente Shuten Order apresenta-se com uma direção artística apelativa e condizente com o tom misterioso do jogo. As personagens são desenhadas com bastante pormenor e personalidade. Cada ministro e aliado tem um aspeto marcante e distinto. As cenas são ilustradas em painéis estáticos num estilo BD, tirando bom partido de enquadramentos e expressões para dar ênfase aos momentos-chave sem recorrer a animações elaboradas. Nota-se que o orçamento é contido, alguns cenários e transições têm um aspeto demasiado simples ou estático, mas no geral a direção artística faz muito com pouco, criando imagens memoráveis nos picos dramáticos da aventura. A Nintendo Switch 2 lida perfeitamente com o jogo, não que se esperasse outra coisa de um título deste género. No campo sonoro, a experiência é positiva. Shuten Order conta com uma banda sonora envolvente, ajustada a cada viragem da história. Há temas soturnos que acentuam o suspense e o peso religioso da ordem, músicas agitadas que pontuam os momentos de tensão e perigo, e até melodias mais ligeiras e emotivas durante os intervalos de descompressão narrativa. A variedade musical ajuda a distinguir os capítulos temáticos, e mantém o jogador imerso no ambiente certo em cada ocasião. As vocalizações encontram-se apenas em japonês e sem dobragem em inglês, o que poderá desapontar alguns jogadores, mas para quem prefere as vocalizações originais, os atores japoneses fazem um bom trabalho.

Em termos de longevidade, Shuten Order traz bastante conteúdo para quem gosta de tramas complexas. Completar os cinco capítulos principais e o epílogo final pode facilmente ultrapassar as vinte horas de jogo, dependendo do ritmo de leitura e da atenção que prestamos. No entanto, após ver os créditos finais, o incentivo para voltar a pegar no jogo é limitado. Não existem ramificações drasticamente diferentes no enredo, todos os jogadores acabam por vivenciar os mesmos eventos-chave, ainda que em ordens diferentes, e as decisões erradas normalmente levam a um “game over” imediato em vez de desfechos alternativos.

CONCLUSÃO

CONCLUSÃO
7 10 0 1
Shuten Order destaca-se pela sua proposta narrativa invulgar e pela forma criativa como junta géneros distintos em cada capítulo. A premissa é forte, o estilo visual cativante, e a direção artística ajuda a manter o mistério. No entanto, a execução irregular das mecânicas, alguns momentos arrastados, e o impacto limitado das escolhas tiram-lhe força. A versão Nintendo Switch 2 garante um desempenho competente e fluido, mas não resolve todos os tropeções da experiência. É uma aposta interessante, mas que nem sempre cumpre tudo o que promete.
Shuten Order destaca-se pela sua proposta narrativa invulgar e pela forma criativa como junta géneros distintos em cada capítulo. A premissa é forte, o estilo visual cativante, e a direção artística ajuda a manter o mistério. No entanto, a execução irregular das mecânicas, alguns momentos arrastados, e o impacto limitado das escolhas tiram-lhe força. A versão Nintendo Switch 2 garante um desempenho competente e fluido, mas não resolve todos os tropeções da experiência. É uma aposta interessante, mas que nem sempre cumpre tudo o que promete.
7/10
Total Score

Pontos postivos

  • Premissa original e história cativante, com mistério e reviravoltas
  • Elenco de personagens intrigantes e bem caracterizadas
  • Variedade de cenários e experiências de jogabilidade

Pontos negativos

  • Estrutura fragmentada prejudica o ritmo e revela segredos fora de ordem
  • Mistura de géneros pouco aprofundada
  • "Puzzles" e desafios repetitivos em certas rotas, e de interação limitada

Nuno Nêveda

Calorias, nutrientes e Nintendo. Três palavras que definem o maior fã de F-Zero cá do sítio. Adepto de hábitos alimentares saudáveis, quando não anda atrás de uma balança, costuma estar ocupado com as notícias mais prementes e as análises mais exigentes.

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